Google
 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O pior cego

Às vezes acho que a imprensa sofre de autismo.
É impressionante que, com tanta coisa acontecendo no país, ela fique circunscrita a uma meia dúzia de pautas, sempre as mesmas, sempre olhando o mundo com os olhos de alguém que se recusa a ver o que se passa além dos muros de seu castelo.
É o caso, por exemplo, da cobertura que se faz das viagens presidenciais. Os repórteres vão cobrir não aquilo que o presidente vai fazer - inaugurar uma obra, participar de uma reunião, quase sempre -, mas observar se ele comete alguma gafe, ou se aceita falar sobre algum tema que esteja no noticiário, para estimular uma polêmica com alguém da oposição.
O tom de fofoca domina essas entrevistas. "Presidente, o que o senhor achou do PIB?", "Presidente, o que o sr. achou das imagens do governador Arruda que a TV mostrou?" - são esses os tipos das perguntas que se fazem, invariavelmente.
Não estou, de modo algum, defendendo algum tipo de jornalismo chapa branca, que dê destaque apenas ao pronunciamento oficial. Gostaria simplesmente que ele fosse contextualizado. Lula esteve no Maranhão, uma das regiões mais miseráveis do país, falou que ninguém investiu tanto quanto o atual governo no Nordeste, prometeu levar mais saneamento básico e moradias para lá - e nenhum repórter foi ver como são as condições de vida do povo de lá, foi checar se esses investimentos são mesmo para valer, foi conversar com as pessoas para saber por que elas veem em Lula um novo "Padim Ciço".
Acho que o jornalismo verdadeiro é isso: levar para os leitores as diferentes visões sobre um assunto, mostrar o que está por trás do que a gente normalmente vê, procurar retratar de modo o mais fiel possível a realidade, sem preconceitos, mas com a convicção de que, acima de tudo, esse é um trabalho que deve ser feito para dignificar a condição humana, e não rebaixá-la.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Voo de cruzeiro


Mais uma ducha fria nas expectativas dos pessimistas: a economia brasileira cresceu 1,3% no terceiro trimestre do ano na comparação com o trimestre anterior. O Produto Interno Bruto (PIB), soma de todas as riquezas produzidas no país, chegou a R$ 797 bilhões no período, segundo dados divulgados pelo IBGE.
A maior elevação foi registrada no setor industrial, cuja alta na produção chegou a 2,9%, seguida pelo setor de serviços, que apresentou expansão de 1,6%. Já a atividade agropecuária teve queda de 2,5%.
Os números mostram que a recuperação da indústria é consistente e que a previsão do governo de que o PIB de 2010 vai crescer 5% é perfeitamente factível - ainda mais com a ajuda do pacote de desonerações fiscais para áreas estratégicas, como a de bens de capital, baixado na quarta-feira.
Em relação ao mesmo período de 2008, o PIB teve queda de 1,2%. Nessa comparação, os serviços registraram o melhor desempenho, com alta de 2,1%, enquanto a agropecuária teve queda de 9,0% e a indústria, de 6,9%.
Vale lembrar que a comparação é prejudicada pelo fato de que, até o terceiro trimestre do ano passado, período que antecedeu a crise econômica global, a economia brasileira vivia seu maior ciclo de expansão da história.
O IBGE apurou que, na comparação com o mesmo trimestre de 2008, o consumo das famílias aumentou 3,9%, o 24º período de crescimento consecutivo. Um dos fatores que contribuíram para o resultado foi o comportamento da massa salarial real, que cresceu 2,5% no terceiro trimestre de 2009, com aumento da ocupação e do rendimento médio do trabalho - prova mais que evidente do acerto do governo Lula em dar prioridade ao mercado interno, fortalecendo os salários e dando condições para o aumento do nível de emprego.
A despesa de consumo da administração pública variou 1,6% na comparação com o terceiro trimestre de 2008 e os investimentos (formação bruta de capital fixo) caíram 12,5%. No acumulado do ano, a soma das riquezas produzidas no país registrou queda de 1,7% em relação a igual período do ano passado.
O IBGE também divulgou dados revisados relativos ao segundo trimestre do ano. Na nova leitura, a economia teve, naquele período, expansão de 1,1% em relação aos três meses anteriores (inicialmente, a elevação apontada foi de 1,9%), depois de ter caído 0,9% de janeiro a março (antes, o dado apresentado foi de queda de 0,8%). Em relação ao segundo trimestre de 2008, a nova leitura revela retração de 1,6%, mais intensa do que a de 1,2% calculada anteriormente.
Em resumo: bye, bye crise.

Com informações da Agência Brasil

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Diário de um governador


Vai abaixo trecho do "twitter" do governador José Serra relativo ao dia em que São Paulo parou - mais uma vez - por causa de chuvas que provocaram mortes, alagamentos, deslizamentos, congestionamentos, interrupções em linhas de trem e ônibus, prejuízos no comércio e na indústria - e quanto mais de ruim pode ocorrer em ocasiões assim.
Serra passou a manhã de terça-feira em seu gabinete e à tarde foi à Brasília, onde, às 17 horas, foi condecorado com a medalha da Ordem do Mérito da Defesa, no grau de grã-cruz, em solenidade no Clube dos Fuzileiros Navais. Recebeu a medalha do ministro da Defesa, Nelson Jobim, amigo de longa data.
Como se nota, ele é um governante muito preocupado com as coisas de seu reino.
(A ordem das sábias observações de Serra estão invertidas, pois foram copiadas exatamente como estão no seu querido diário e, portanto, devem ser lidas de baixo para cima)

Esses são os principais dados que consolidamos ao longo do dia. Felizmente, parou de chover.

about 4 hours ago from web

Em 2006, concluiu o aprofundamento da calha do Tietê. Desde então, esta é a segunda vez que o rio transborda.
about 4 hours ago from web

Em 11 anos, o governo de SP fez 45 piscinões, com capacidade para reter 8 milhões de m3 de água.
about 4 hours ago from web

Nos oito primeiros dias de dezembro, choveu 143,1 mm, o que equivale a dois terços do previsto para todo o mês.
about 5 hours ago from web

Foi a chuva + intensa em um dia na Capital, desde março de 2006. Em 15 horas, choveu quase 40% do volume previsto p/ todo o mês de dezembro.
about 5 hours ago from web

Ainda estava acordado, na madrugada passada, quando começou a chover em São Paulo. Acionei a Defesa Civil, que fica aqui no palácio.
about 5 hours ago from web

Boa noite a todos.
1:24 AM Dec 8th from web

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

As falsas aparências


O caso de corrupção que a Polícia Federal levantou no Distrito Federal e que apropriadamente denominou "Operação Caixa de Pandora", além de chocar pela quantidade de pessoas envolvidas, chama a atenção por revelar alguns personagens que atuavam discretamente instalados na administração pública, como simples membros de uma burocracia preguiçosa.
Caso, por exemplo, do ex-secretário adjunto de Saúde Fernando Antunes. Presidente regional do Partido Popular Socialista (PPS), Antunes é acusado de, junto com o ex-secretário de Saúde e deputado federal Augusto Carvalho (PPS), cobrar propina da empresa Uni Repro Soluções Tecnológicas, detentora de um contrato de prestação de serviços que em apenas dois anos elevou os gastos da secretaria com serviços gráficos de R$ 235 mil (2006) para mais de R$ 14,8 milhões (2008).
Assim como o próprio contrato com a empresa paulista, que, apesar de condenado pela Procuradoria-Geral do Distrito Federal (PGDF), está em vigor desde 2007, só depois que a PF deflagrou a operação fatos controversos sobre Antunes começaram a vir à tona.
Servidor da Controladoria-Geral da União (CGU) cedido ao GDF, membro fundador da ONG Transparência Brasil e presidente licenciado da União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle (Unacon), Antunes foi condenado em primeira instância pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal a devolver R$ 200 mil ao condomínio no qual foi síndico por quatro anos (1998-2002).
Durante o processo, o juiz Fabrício Fontoura Bezerra se convenceu de que, segundo as provas periciais, “as contas apresentadas por Antunes contêm várias irregularidades que, juntas, somam a quantia de R$ 200.384,70”. Ainda de acordo com o juiz, a perícia realizada nos balancetes, documentos e na prestação de contas apresentados pelo ex-secretário comprovam “o efetivo desvio de valores, pagamentos sem comprovação, duplicidade de recibos para justificar falsos pagamentos, entre outros fatos”. Antunes recorreu da decisão e aguarda o julgamento do recurso.
Sobre a ligação de Antunes com a Transparência Brasil, o seu diretor-executivo, Cládio Abramo, afirmou que Antunes e a Unacon deixaram de ser sócios da entidade assim que o ex-secretário passou a integrar o governo do Distrito Federal, em 2007.
No inquérito da PF, Antunes é citado durante uma conversa entre Durval Barbosa, autor das denúncias e ex-secretário de Relações Institucionais do Distrito Federal, e o ex-secretário de Saúde e ex-chefe da Casa Civil José Geraldo Maciel, outro alvo da Operação Caixa de Pandora. Durante o diálogo gravado por Barbosa com autorização judicial, os dois mencionam que parte do dinheiro arrecadado por Antunes e pelo deputado Augusto Carvalho servia para “ajudar” o presidente nacional do PPS, o ex-deputado federal Roberto Freire.
Os deputados Augusto Carvalho e Roberto Freire negam ter participado ou se beneficiado do esquema denunciado por Durval Barbosa e prometem buscar reparação judicial.
A história toda é cabeluda, sob qualquer ponto de vista. E, embora se saiba que corrupção e administração pública são irmãs siamesas aqui no Brasil, a profundidade dessa Caixa de Pandora dá o que pensar.
Faz a gente desconfiar de tudo. Por exemplo, daquele vizinho que mora num sobradinho e aparece com um carrão novo a cada dois meses, enquanto a gente mal e mal equilibra as contas a pagar. Ou daquele outro, funcionário público de uma repartição esquecida, moralista empedernido, que alterna os fins de semana entre o apartamento no litoral e a chácara no interior, "pechinchas" que comprou com a poupança suada de seu magro salário.
E, como é impossível, pelo menos num curto prazo, mesmo com todo o esforço da polícia, acabar com a praga da corrupção, que a Caixa de Pandora sirva como exemplo capaz de assustar - um pouco que seja - esses bandidos travestidos de gente séria.
Porque eles são apenas isso - criminosos comuns.

Com informações da Agência Brasil

domingo, 6 de dezembro de 2009

Vozes juvenis

Se eu tinha alguma dúvida sobre a queda dos padrões de qualidade da imprensa nativa, elas foram inteiramente dissipadas nesses últimos dias. Não, não estou me referindo à cobertura política dos jornalões: a respeito disso, acho que a contaminação partidária do noticiário é irreversível, e são poucos os capazes de defender, sem nenhum traço de cinismo, essa fórmula, apresentada como se fosse a derradeira guardiã de nossa jovem democracia.
Estou falando mesmo é do despreparo dos jornais para exercer aquilo que um dia foi chamado no Brasil de jornalismo.
Poderia ficar aqui citando tantos exemplos dessa ruindade que não pouparia não só a minha, mas a paciência de todos que porventura ousem ler esta croniqueta.
Por isso, vou me ater a um só fato, verificado, com extremo pesar, no decorrer de toda a semana passada, em variados veículos de comunicação, cada um mais importante que o outro: a crítica do novo CD de uma moça chamada Mallu Magalhães, que, todos sabem melhor do que eu, ganhou a fama como cantora/compositora aos 16 anos, depois de que o YouTube espalhou alguns vídeos de suas interpretações pela rede.
Hoje, dizem os críticos de publicações como Folha e Estadão, entre outras, Mallu está mais "amadurecida", compõe com mais liberdade (antes só o fazia com letras em inglês e usando melodias que eles classificam como "folk", sejá lá o que for isso), canta melhor e, por ter deixado de ser uma artista "independente", seu trabalho está mais bem produzido. E haja louvação.
Talvez por ter crescido escutando compositores e cantores de verdade, ter acompanhado o trabalho de críticos de verdade, ter lido jornais e revistas de verdade, confesso que o pouco que me resta de cabelo se arrepiou quando fui constatar, por meio de uma improvisada audição, se o trabalho da garota merecia tantos rapapés.
O que ouvi...bem, vamos deixar para lá.
O fato é que, depois da sessão pseudomusical a que me submeti, baixou em mim uma melancolia que há muito não experimentava, um misto de desalento e rendição a esses novos tempos, que confundem arte com hobby, profissionalismo com pedantismo, trabalho com distração.
Desejo a melhor sorte do mundo a essa nova estrela da música popular brasileira. Que seja feliz, que continue a distrair os adolescentes com a sua inquietação juvenil.
Quanto aos críticos que manejam os adjetivos laudatórios com a facilidade e velocidade da internet, só dou um conselho, se é que este meio século e pouco de experiência vale alguma coisa: nunca é tarde para estudar, nunca é tarde demais para aprender.
Ah, e antes que me esqueça: sejam um pouco menos dependente dos releases.

sábado, 5 de dezembro de 2009

A lição do mestre



"O nosso mundo é sombrio. É só olhar mendigos debaixo de uma ponte qualquer para ver Goeldi lá. Uns vêem em minhas obras o horrível, outros acham o monstruoso, já outros observam o heróico. Isso fica a critério do público."
Marcello Grassmann

Um dos mais importantes artistas brasileiros, o desenhista e gravador Marcello Grassmann, tomou a iniciativa de, aos 84 anos, reunir toda a sua magnífica obra de gravura em metal, 189 trabalhos, numa edição especial, que está colocando à venda.
O aperitivo da coleção está num blog especialmente criado, pelo qual as pessoas ou instituições interessadas podem entrar em contato com o artista - ou comprar os seus trabalhos.
O preço, em se tratando de alguém da dimensão de Grassmann, é uma pechincha: R$ 150 mil, ou R$ 793,65 por gravura.
A iniciativa chama atenção não apenas pela sua importância cultural, mas pelo ineditismo. Marcello Grassmann nunca foi um criador atraído pelo marketing fácil: a consistência e a coerência de sua obra atemporal e além dos modismos, já são garantia de que ela prescinde dos artifícios publicitários muito usados por outros artistas menores.
Seja lá por que motivos Grassmann desta vez tenha se exposto tanto, sua atitude demonstra quão escassos são ainda os meios de acesso do público às artes plásticas no Brasil.
Ao utilizar a internet, essa maravilha contemporânea que revoluciona o mundo de várias maneiras, para "vender" o trabalho de sua vida, Marcello Grassmann demonstra que a sabedoria dos verdadeiros mestres vai além das verdades insofismáveis que porventura eles apregoem: antes disso, ela se constrói com a humildade que só os homens sinceros carregam.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Campo de sonhos


A presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Kátia Abreu, senadora pelo DEM de Tocantins, se emocionou durante discurso da tribuna do Senado, ao comentar as críticas que o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananais, teria feito ao agronegócio. Segundo ela, Patrus classificou os produtores de escravocratas. A assessoria de Patrus nega e diz que as críticas da senadora não procedem.
Kátia Abreu lembrou os episódios em que os ministros do Meio Ambiente, Carlos Minc, e do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, classificaram os agricultores de “vigaristas” e de “senhores feudais”, respectivamente. No entanto, segundo ela, as palavras de Patrus na Conferência Nacional da Assistência Social, foram as que mais chocaram.
“O ministro Patrus Ananias, diante de 2 mil pessoas ligadas à assistência social, pessoas que têm um trabalho extraordinário pelo país, disse que o trabalhador rural enfrenta a gravidade do trabalho escravo. Afirmou que o Bolsa Família ajudou o trabalhador a enfrentar o patrão para não se submeter ao trabalho escravo. Disse que sem o Bolsa Família os trabalhadores estariam totalmente à mercê do trabalho escravo, que os produtores rurais do país são escravocratas”, discursou, mal contendo as lágrimas.
A senadora lamentou as supostas palavras do ministro e ressaltou que o agronegócio tem sido responsável pelo equilíbrio das contas do país. “Se eles não têm compaixão, admiração, não têm reconhecimento, não importância, nós significamos um terço do PIB, um terço do emprego, um terço das exportações, da economia do país. Em um ano, três ministros. Vigaristas, senhores feudais, escravocratas. Não é mais possível permitir que isso aconteça”, afirmou ela.
Kátia Abreu, no entanto, reconheceu que os agricultores podem ter cometido erros no passado. “Reconheço que todos os setores da economia cometem erros. Todas as pessoas, em todos os lugares, às vezes erram, se equivocam, mas estamos tentando melhorar, estamos buscando consenso. Temos debatido sem descanso. Não temos evitado nem os maiores adversários no diálogo, quer seja na área ambiental, quer seja na área fundiária, quer seja em todos os setores.”
Segundo a assessoria de Patrus, o termo escravocrata estaria ligado às críticas que são feitas ao Bolsa Família, pelas quais os beneficiários do programa ficariam acomodados e não buscariam emprego. O que ele teria dito é que com a renda obtida com o programa, as famílias não precisam se sujeitar a qualquer trabalho. A assessoria acrescentou que o ministro vem de família de agricultores e jamais faria uma crítica nesses termos.
A emotividade à flor da pele da senadora Kátia Abreu se justifica. Pois até os chamados "produtores rurais" estão percebendo que as coisas estão mudando no país. E assim, vale tudo para retardar o que parece inexorável. Derramar umas lágrimas de crocodilo é um pequeno sacrifício que justifica a causa maior: manter todos os privilégios indefinidamente.
Com informações da Agência Brasil

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Missão impossível

A chamada "grande imprensa" faz agora um esforço danado para mostrar equivalência entre o esquema de corrupção do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, e o que ela chama de "mensalão", que envolveu PT e outros partidos da base aliada.
Se o truque pegar, o estrago para o lado tucano-pefelista será menor que o imaginado. A lógica é incutir na cabeça das pessoas a ideia - totalmente errada - que todos os políticos são corruptos, que a própria política é suja, que dela só se ocupam pessoas que estão atrás de lucros fáceis - a começar, claro, pelo presidente da República.
Nessa concepção perversa, Arruda e asseclas seriam apenas uns peões a mais desse xadrez do mal que a classe política está acostumada a jogar.
A solução para a "turma do bem" passa por defenestrar o governador do seu partido, que, assim, mostraria aos brasileiros e brasileiras que não compactua com as suas práticas. É a piada pronta.
Os tucanos-pefelistas jogam ainda com o fato de que a Justiça brasileira é lenta e, muitas vezes, parcial. O caso pode demorar alguns anos para ser julgado. Até a sua conclusão, muita coisa pode acontecer. Como o poder federal mudar de mãos.
Seja como for, está difícil para os jornalões ignorarem as traquinagens do governador que até outro dia era mostrado como um raro exemplo de homem público competente, administrador moderno, merecedor de páginas e páginas de textos laudatórios.
Fazer jornalismo nunca foi fácil. Fazer jornalismo partidário sob a aparência de sério é difícil, às vezes impossível.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Os homens do governador

A Agência Brasil publicou ontem importante matéria do repórter Alex Rodrigues sobre o caso José Roberto Arruda, o governador do Distrito Federal acusado de comandar um enorme esquema de corrupção. Nela, estão os nomes dos principais envolvidos e os papéis que desempenhavam no esquema.
Pelo seu didatismo, vale a reprodução na íntegra:

Nos depoimentos que prestou aos promotores de Justiça Sérgio Bruno Cabral Fernandes e Clayton da Silva Germano, do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) e Territórios, o ex-secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa, acusa mais de 30 pessoas e várias empresas de participarem do esquema de desvio e distribuição de recursos públicos à base aliada do governador José Roberto Arruda (DEM).
Alegando temer ser apontado como chefe do esquema criminoso comandado, segundo ele, pelo próprio governador, Barbosa entregou aos promotores 30 fitas de vídeo que gravou enquanto negociava ou distribuía aos destinatários, supostamente indicados por Arruda, parte da propina paga por empresas que prestavam serviços ao governo do Distrito Federal. Entre as empresas citadas, estão a Combral, do secretário de governo José Humberto, a Info Educacional, a Vertax, a Adler, a Linknet, o Grupo TBA, entre outras.
Além disso, Barbosa entregou aos investigadores uma quantidade de documentos que reforçariam suas acusações contra o governador, seu vice, Paulo Octávio (DEM), secretários de governo, deputados distritais, integrantes da equipe de governo, um conselheiro do Tribunal de Contas do Distrito Federal e várias outras pessoas, entre elas o filho de Arruda, Marcos Sant'anna Arruda, apontado como um dos sócios de uma empresa contratada pela Codeplan na época em que esta era presidida por Barbosa, já então um aliado político de Arruda.
Abaixo, a Agência Brasil elenca alguns dos nomes apontados por Barbosa, que, pela gravidade das acusações, teve que ser colocado no Programa de Proteção à Testemunha. Por meio de sua assessoria, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) destacou que todos os citados estão sendo investigados, mas que, até o momento, ninguém foi indiciado e que ainda não há elementos conclusivos sobre a eventual participação de qualquer um deles no suposto esquema. Arruda não está na lista, porque já é o principal acusado por Barbosa.
Adalberto Monteiro – presidente do Partido Republicano Progressista (PRP) no Distrito Federal, teria, segundo Barbosa, recebido R$ 200 mil para que seu partido aderisse à coligação de Arruda. O dinheiro, segundo Barbosa, teria vindo dos recursos desviados de contratos de prestação de serviço na área de informática.
Alcir Collaço - dono do jornal Tribuna do Brasil, foi gravado guardando dinheiro na cueca. A reportagem não localizou nos depoimentos de Barbosa ao MPDFT mais informações sobre a participação do empresário no esquema.
Benedito Domingos – deputado distrital e presidente regional do Partido Progressista (PP), é acusado de ter recebido cerca de R$ 6 milhões para aderir à coligação de Arruda
Cristina Boner – empresária do ramo de informática é dona do grupo TBA, que, conforme o inquérito, conseguiu um contrato de prestação de serviços com o GDF por ter doado R$ 1 milhão à campanha de Arruda. O contrato, classificado como emergencial, previa a prestação de serviços ao programa Na Hora e era gerenciado pelo subsecretário de Justiça e Cidadania, Luiz França, gravado recebendo dinheiro de Barbosa.
Divino Omar Nascimento – presidente do Partido Trabalhista Cristão (PTC) no Distrito Federal, é acusado de ter recebido R$ 100 mil para aderir à coligação de Arruda quando este disputava o governo local, em 2006.
Domingos Lamóglia - ex-chefe de gabinete de Arruda na Câmara dos Deputados, atualmente ocupa o cargo de conselheiro de Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), para o qual foi indicado pelo próprio governador. Junto com Omézio, assessor de imprensa do governo, era, segundo Barbosa, o representante de Arruda durante a campanha de 2006, ou seja, quem dizia o quanto era necessário levantar em dinheiro. Barbosa também acusa Lamóglia e o secretário de Governo, José Humberto, de serem os destinatários do dinheiro por ele coletado em nome de Arruda. Barbosa garante, no depoimento ao MPDFT, ter entregue “lotes de R$ 1 nilhão” a Lamóglia várias vezes.
Eurides Brito – líder do governo na Câmera Legislativa, a deputada distrital (PMDB) é acusada de receber R$ 30 mil mensais em troca do apoio político-partidário ao governo Arruda. Foi um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ e aparece em vídeo enchendo sua bolsa com dinheiro entregue por Barbosa.
Fábio Simão – ex-chefe de gabinete da Governadoria, é apontado por Barbosa como o responsável por “gerenciar os contratos de terceirização de serviços do GDF”, cabendo-lhe “arrecadar dinheiro de propina dessas empresas e repassá-lo a quem Arruda determinasse. Foi um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ e afastado do cargo no último dia 27.
Fernando Antunes – presidente regional do PPS e secretário-adjunto da Secretaria de Saúde, seria, segundo Barbosa, a pessoa autorizada pelo secretário de Saúde, Augusto Carvalho, a negociar o pagamentos de propinas em troca da assinatura de contratos com empresas privadas.
Gilberto Lucena – dono da Linknet, empresa que tem contrato com o GDF, aparece em vídeo reclamando do valor de dinheiro exigido por integrantes do governo, do qual, segundo ele, não estariam sendo deduzidos as quantias pagas a título de adiantamento para o vice-governador, Paulo Octávio; o secretário de Ordem Pública, Roberto Giffoni e o secretário de Planejamento, Ricardo Pena.
João Luiz – médico e atual subsecretário de Recursos Humanos da Secretaria de Saúde do DF, aparece em um vídeo recebendo cerca de R$ 20 mil relativos a um contrato assinado entre a secretaria e a empresa Unirepro, para serviços de impressão, reprografia e gráfica.
José Celso Gontijo – Ou “Zé Pequeno”, como o chama Barbosa no vídeo em que o dono da construtora JC Gontijo Engenharia aparece entregando ao ex-secretários dois pacotes contendo, supostamente, dinheiro. A empresa de Gontijo foi a responsável pela construção da Ponte JK, concluída durante o governo de Joaquim Roriz (então no PMDB, hoje no PSC), obra que o Ministério Público acusou de ter sido superfaturada. Atualmente, a empresa toca a construção da nova rodoviária, inicialmente orçada em R$ 47 milhões.
José Geraldo Maciel – ex-chefe da Casa Civil, teria sido encarregado de, entre outras coisas, pagar aproximadamente R$ 400 mil mensais a alguns deputados distritais da base aliada pelo apoio ao governo Arruda. Um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ. Foi afastado do cargo no último dia 27.
José Humberto – homem de confiança de Arruda, o secretário de governo seria um dos responsáveis por receber o dinheiro recolhido por Barbosa, que garante ter entregue pessoalmente a Humberto “lotes de R$ 1 milhão” em pelo menos duas ocasiões, além de ter deixado iguais montantes na empresa do secretário, a Combral, em pelo menos outras duas ocasiões. A Combral foi alvo dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ.
José Luiz Valente – ex-secretário de Educação, é acusado de ter recebido R$ 60 mil da Info Educacional, empresa contratada para prestar serviços ao GDF. Foi afastado do cargo no último dia 27.
José Luiz Vieira Naves – secretário de Planejamento na gestão de Maria Abadia e hoje presidente da Companhia Habitacional do Distrito Federal, aparece em dois vídeos recebendo valores não declarados “por facilitar a liberação de recursos orçamentários de interesse de Arruda quando este ainda era candidato ao governo do DF.
Júnior Brunelli – deputado distrital (PSC) e atual corregedor da Câmara Legislativa, é acusado de receber R$ 30 mil mensais em troca de apoio político ao governo Arruda. Aparece em vídeos recebendo dinheiro e rezando junto ao também deputado Leonardo Prudente (DEM) e Durval Barbosa.
Leonardo Prudente – deputado distrital (DEM), atual presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, aparece em dois diferentes vídeos recebendo dinheiro. Em um deles, de 2006, é flagrado guardando “cerca de R$ 25 mil” em bolsos do paletó, da camisa e até na meia. De acordo com Barbosa, recebia R$ 50 mil mensais do esquema e mantinha parentes e pessoas próximas em cargos estratégicos que lhes permitiam desviar dinheiro de órgãos como o Detran-DF, extorquindo empresários que disputavam licitações. Foi um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ e, no último dia 30, admitiu ter recebido dinheiro para sua campanha e não tê-lo declarado à Justiça Eleitoral.
Luiz França – subsecretário de Justiça e Cidadania, aparece em vídeo recebendo dinheiro de Barbosa. França seria responsável pelos contratos de gestão Na Hora Fixo e Na Hora Móvel
Márcio Machado – Atual secretário de Obras, é presidente do PSDB no Distrito Federal. Barbosa afirma que ele esteve em sua sala e até mesmo em sua casa a fim de negociar a liberação de “dinheiro para saldar compromissos assumidos com os políticos coligados”. Ao MPDFT, Barbosa diz que Machado teria negociado o pagamento de R$ 6 milhões para o deputado Benedito Domingos (PP), além de R$ 200 mil para Adalberto Monteiro, presidente local do PRP e de R$ 100 mil para Omar Nascimento, que comanda o diretório regional do PTC.
Marcelo Carvalho – diretor do grupo empresarial Paulo Octávio. Segundo Barbosa, Carvalho foi diversas vezes ao seu escritório a fim de recolher o dinheiro arrecadado das empresas de informática, cujo percentual da equipe de Paulo Octávio era de 30%. “Marcelo foi um dos responsáveis pela distribuição dos valores arrecadados para pagamento dos deputados distritais da base do governo por conta da aprovação do Plano Diretor de Ordenamento Territorial do DF, arrecadado entre empresas que se beneficiaram da aprovação do plano”, afirma Barbosa em depoimento ao MPDFT.
Nerci Soares Bussamra – diretora comercial da Uni Repro Serviços Tecnológicos, foi gravada quando entregava a Barbosa uma sacola com dinheiro. No vídeo, Nerci acusa o PPS de chantageá-la e cobrar propina para manter um contrato da Secretaria de Saúde, comandada pelo deputado Augusto Carvalho, filiado ao partido. Ainda segundo o diálogo gravado, parte do dinheiro teria sido destinada ao presidente da legenda, o ex-deputado Roberto Freire (SP), que já anunciou a intenção de processar Nerci.
Odilon Aires – Ex-deputado distrital pelo PMDB e atual presidente do Instituto de Atendimento à Saúde do Servidor do Distrito Federal (DF), aparece em um vídeo recebendo dinheiro de Durval Barbosa, que o acusa de receber R$ 30 mil mensais do esquema.
Omézio Pontes – assessor de comunicação e “homem de confiança” de Arruda, afastado do cargo na última sexta-feira. Junto com Domingos Lamóglia, representante de Arruda durante a campanha de 2006. Aparece em pelo menos dois vídeos recebendo, segundo o depoimento de Barbosa, “mais de R$ 100 mil” da primeira vez e R$ 100 mil da segunda, esta junto com Domingos Lamóglia. Um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ. Foi afastado do cargo no último dia 27.
Orlando José Pontes – Ao lado de seu irmão, Omézio Pontes, e do filho do governador José Roberto Arruda, Marcos Sant´anna Arruda, era dono da empresa de comunicação e marketing Notabilis quando esta passou a prestar serviços à Codeplan, então presidida por Durval Barbosa. Em dezembro de 2005, próximo a posse de Arruda, Omézio e Marcos deixam a sociedade da empresa, que passa as mãos de Orlando e do novo sócio, Milton Dias Guimarães.
Paulo Octávio – vice-governador do Distrito Federal e presidente regional do Democrata, é citado por Barbosa como beneficiário da partilha das propinas pagas por empresas que prestam serviços ao GDF. Empresário do ramo da construção civil, é um dos homens mais ricos do Distrito Federal.
Paulo Pestana – assessor da secretaria de Comunicação Social do GDF, aparece em um vídeo recebendo R$ 10 mil. Segundo ele, o dinheiro era o pagamento por ter "assessorado Arruda”.
Paulo Roberto – diretor do DFTrans, aparece em vídeo recebendo supostos R$ 20 mil de propina, obtidos graças aos contratos para prestação de serviços de informática no departamento.
Paulo Roxo – apontado como outro dos captadores de recursos para Arruda, exigindo propina das empresas interessadas em contratos de prestação de serviços ao GDF. Um irmão seu chegou a ocupar um cargo na diretoria do Banco de Brasília (BRB) – “um dos setores do governo mais cooptados pela corrupção”, mas foi afastado “porque estava extrapolando nas negociatas”.
Pedro Marcos Dias (Pedro do Ovo) – suplente de deputado distrital (PRP), é outro dos acusados a receber propina em troca de apoio político ao governo Arruda. Foi um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ.
René Abujalski – citado como dono da empresa Nova Fase. Barbosa diz que Arruda o apresentou a Abujalski antes mesmo de ter sido eleito governador, com a recomendação de que a Nova Fase fosse contratada para prestar serviços à Secretaria de Previdência Social. Dois contratos teriam sido assinados, totalizando a soma de R$ 27 milhões. Em seu depoimento, Barbosa diz suspeitar que Arruda seja o verdadeiro dono da Nova Fase.
Roberto Giffoni – secretário de Ordem Pública, é mencionado pelo empresário Gilberto Lucena, dono da Linknet, como tendo recebido “pedágio” de R$ 280 mil para que o GDF reconhecesse e saldasse dívidas com a empresa.
Rogério Ulisses – deputado distrital (PSB), presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Legislativa, é acusado de receber dinheiro do esquema ilegal. Foi um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ.
Ricardo Pena – Secretário de Planejamento, seria dono da empresa Soma, contratada para prestar serviços de pesquisa de opinião para o governo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Briga na família

A revelação de que o governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, acusado de liderar um grande esquema de corrupção, ameaçou os próceres de seu partido, o DEM, de "radicalizar" se radicalizarem com ele (ou seja, se ele for expulso sumariamente da legenda), mostra uma nova face desse político singular, que já foi, quando era líder do governo FHC no Senado, pego violando o painel eletrônico de votação: a de chantagista.
Claro que Arruda, experiente nas lides administrativas, conhece todos os podres de seus correligionários demistas. Claro que eles se surpreenderam com o contra-ataque, pois não julgaram que o governador sequer pensasse em abrir a caixa de Pandora, essa que guarda segredos compartilhados apenas por alguns poucos escolhidos.
Mas ele sabe que a sua única arma, no momento, é a chantagem. E, por isso, a usa sem rodeios, sem meias palavras. Radicalizem para ver o que acontece, ameaça.
Diante de tal situação, restará ao DEM um recuo para uma posição intermediária, sob a alegação de que Arruda merece o benefício da dúvida.
Enquanto isso, o partido tentará articular uma saída menos vexatória dessa situação. Sem base popular, vivendo apenas dos votos de alguns currais eleitorais criados há décadas, ou de acasos como o da prefeitura paulistana, o DEM pode perder até mesmo a sua única razão de existência, a de ser linha auxiliar dos tucanos, se, como é bem possível, o PSDB resolver se livrar do fardo pesado que essa direita anacrônica e truculenta encarnada no ex-PFL representa.
Seja como for, os problemas de Arruda têm a capacidade de causar enormes estragos na oposição, que há pouco tempo colecionava pedras para jogar nas vidraças do Palácio do Planalto.
Nada como um dia depois do outro.

domingo, 29 de novembro de 2009

O risco Serra


A vitória do candidato da Frente Ampla, José Mujica, na eleição presidencial do Uruguai, reafirma a trajetória da América do Sul em direção de governos de esquerda, populares, com nítida preocupação social e desejo de mudanças profundas em sociedades amplamente injustas e desiguais.
O Brasil de Lula, com todos os seus defeitos, é a fonte inspiradora dessa onda progressista, muito mais que o temido - pelos conservadores - "chavismo bolivariano", até agora uma carta de excelentes intenções sem grandes resultados práticos.
Porém, para que o continente possa colher, nos próximos anos, os frutos dessas administrações que têm mostrado um novo caminho não só para os povos da região, mas para todo o mundo, é imprescindível que o governo Lula faça o seu sucessor.
Uma vitória, improvável, mas não impossível, de um candidato oposicionista - e é quase certo que ele seja o governador paulista José Serra - custará muito caro não só para o desejo brasileiro de vir a se tornar uma potência econômica e social, mas para todos os países vizinhos, que, como nós, saíram da idade das trevas para a descoberta da luz.
Todos sabem o que é um governo tucano, seus compromissos com o grande capital, sua aversão aos movimentos sociais e sindicais, seu divórcio das causas populares, seu amor ao Estado mínimo e a tudo o que ele representa e, por último, sua submissão ao grande irmão do norte.
Serra presidente será o fim de todos os sonhos.

Imagens devastadoras

Começou a debandada.
Segundo informou a Agência Brasil, o PPS se prepara para deixar a base aliada do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM). As executivas nacional e no DF devem se reunir na terça-feira em Brasília para definir a questão e recomendar que o secretário de Saúde, Augusto Carvalho, peça exoneração do cargo em decorrência das denúncias de corrupção investigadas pela Polícia Federal na operação Caixa de Pandora.
Arruda e seu vice, Paulo Octávio, ambos do DEM, assessores do governo do Distrito Federal, deputados distritais e empresários estão no centro das denúncias investigadas pela Polícia Federal, que apontam a existência de um suposto e complexo esquema de corrupção.
No esquema haveria superfaturamento de contratos, irregularidades em licitações e pagamentos de propinas. Segundo as apurações, cerca de R$ 600 mil foram repassados por meio de arrecadação de empresas privadas que mantêm contratos com o governo do Distrito Federal. Imagens de vídeo feitas pelos policiais mostram Arruda recebendo dinheiro.
Já o comando nacional do DEM, pressionado internamente, prepara a desfiliação e futuramente a expulsão de Arruda. “Existe um fato e denúncias. Contra fatos e denúncias o combate são fatos e não versões. É assim que funciona. Vamos dar ao governador o espaço que ele precisa para se explicar. Mas o clima de desconforto é grande. Aguardamos a defesa dele, mas grande parte do DEM pensa na desfiliação e até na expulsão”, disse o senador Demóstenes Torres.
Demóstenes contou que Arruda passou o domingo conversando, por telefone, com cada integrante da executiva nacional do DEM. Nas conversas, o governador tentou explicar as imagens em que aparece recebendo dinheiro do então assessor Durval Barbosa.
Para o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, "a imagem do governador sentado em uma cadeira recebendo um pacote de dinheiro é devastadora".Britto comparou as denúncias ao caso de corrupção envolvendo o ex-presidente do Peru Alberto Fujimori e o seu ex-chefe de Inteligência Vladimiro Montesinos. Fujimori foi condenado a sete anos e seis meses de prisão por ter pago US$ 15 milhões a Montesinos, em setembro de 2000.
Ele lembrou que esta não é a primeira vez que Arruda é envolvido em escândalo. Em 2001, ele teve que renunciar ao mandato de senador da República no episódio do painel de votação eletrônico. Arruda chegou a chorar na frente às câmeras de televisão na ocasião, dizendo: “Não matei, não roubei e não desviei recursos públicos."
Em 2001, quando foi acusado de violar o painel eletrônico de votação do Senado, Arruda também teve uma estratégia inicial de ficar no cargo. Foi até a tribuna da Casa e jurou pelos próprios filhos que era inocente. Quando as evidências se avolumaram, acabou renunciando.
Arruda já era.
Agora vamos ver no que vai dar o caso dos tucanos paulistas, acusados de receberem dinheiro da construtora Camargo Corrêa.
Apostas na mesa...

No ar...

O Esquerdopata voltou ao ar nesta manhã.
De madrugada, quem o acessava lia um aviso de que ele havia sido removido pelo administrador, no caso o Blogger.
Olho vivo...


Fora do ar

O blog Esquerdopata, do Valdir Fiorini, foi removido de seu endereço, sabe-se lá o motivo. De qualquer forma, é algo preocupante.
Se aconteceu com ele, pode ocorrer com qualquer um - e isso não é bom para ninguém.
Antes, o FBI - Festival de Besteiras na Imprensa, também já havia sido defenestrado do seu endereço.
Por coincidência - ou não - os dois estavam hospedados aqui no Blogger.
De qualquer forma, se esses fatos fazem parte de alguma campanha higienista, que visa "limpar" a internet de algumas vozes mais estridentes à esquerda, ela está fadada ao insucesso completo.
Isso porque apenas imbecis podem supor que um ato tão primário em sua violência tem alguma chance de dar algum resultado no Brasil atual, que vive uma fase inédita de consolidação da democracia.

sábado, 28 de novembro de 2009

Coisa de louco


No meu meio século e um pouco de vida já conheci, trabalhei e convivi com alguns tipos que me assustavam. Faziam coisas entre a irresponsabilidade, a maldade e o exibicionismo, coisas que dificilmente a grande maioria de nós era capaz de fazer.
Dou alguns exemplos.
Um deles era um mentiroso contumaz. Mentia sem perceber que quem o escutava já sabia que ele estava contando uma lorota. Acho que ele até acreditava nas suas invencionices.
Outro era um pai de família respeitável, bem educado com a vizinhança, boa praça mesmo. Só que havia acabado de sair da cadeia por ter chefiado um bando de assaltantes que aterrorizara algumas cidades do interior e chegara mesmo a matar um comerciante.
Um terceiro, que trabalhou comigo, era um sujeito inteligente, também bom chefe de família, conhecido por todos na cidade. Só que vivia enroscado em problemas como passar cheques sem fundos, dar pequenos golpes no comércio e coisas afins.
Havia também o consumista compulsivo, que torrava tudo o que ganhava em bobagens, mas morava em casa alugada. Esse também gostava de contar vantagens, era um garganta que fazia sucesso com as pessoas que não o conheciam.
Recentemente, li um livro que me emprestaram que alertava para a gente tomar cuidado com tipos assim, sedutores, com boa conversa, que vão ganhando no papo os que convivem com ele.
Acontece que, quando menos se espera, eles dão o bote, como um predador caça a vítima, colocam seus amigos, familiares, namorados, amantes, seja quem for, em situações absolutamente constrangedoras - para dizer o mínimo.
Eles passam por cima de tudo para chegar onde querem, para atingir seus objetivos.
A autora, uma psicanalista ou psicóloga brasileira, cujo nome esqueci, é peremptória em afirmar que tais sujeitos na verdade são psicopatas e deles deve-se fugir como o diabo foge da cruz.
Não tenho condições para dizer se o diagnóstico dela é correto, se existem tantos psicopatas soltos por aí e se é fácil, como ela escreveu, identificá-los.
Sei apenas que para certas pessoas, contar uma fofoca sobre alguém poderoso que elas um dia conheceram, pode até ser algo saudável, se isso for feito, digamos, numa mesa de botequim ou numa festa entre amigos.
Agora, quando essa fofoca sai num dos maiores jornais do país, com toda a pompa e circunstância que os personagens envolvidos merecem, é para desconfiar que o seu autor tem não um, mas muitos parafusos soltos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Candidatíssimo


O Serra não é candidato a presidente.
Mas nesta semana já foi ao programa do Ratinho, da Luciana Gimenez, do Flávio Cavalcanti, do Gugu, do Sílvio Santos, do Chacrinha, ao Esta Noite se Improvisa, ao Show do Dia 7, ao Viva o Gordo, e até ao Circo do Arrelia.
Em todos, disse alto e claro: "Não sou candidato a presidente."
Mas informou ao telespectador que foi ele que criou o Bolsa Família, os genéricos, a aposentadoria, o salário mínimo, o salário desemprego, o Hospital das Clínicas, o auxílio-funeral e o Minha Casa, Minha Vida. Também, modestamente, disse que é o pai do PAC. E que odeia o mosquito da dengue.
Em todos, repetiu várias vezes: "Não sou candidato a presidente."
Mas avisou que vai baixar os juros; acabar com o que resta da inflação; desvalorizar o real para que os exportadores possam exportar mais; valorizar o real para que os importadores possam importar mais; reduzir as emissões de gás carbônico para salvar o planeta; baixar os impostos para que o empresário possa aumentar a produção; elevar os impostos para que o Estado possa funcionar melhor; privatizar a Petrobras para que o petróleo não seja só do Brasil, mas de todo o mundo, especialmente das grandes petrolíferas; e construir mais 200 praças de pedágio para que as estradas sejam mais lisas que a sua careca e brilhem mais que a sua cara de pau.
O Serra não é candidato a presidente, mas se fosse, iria prometer que não faz promessas e que, por ter sido o melhor ministro da Saúde de todo o mundo, o melhor ministro do Planejamento de todas as eras, o melhor engenheiro não formado de toda a USP, o melhor economista sem diploma de todo o Brasil, o melhor prefeito que não terminou o mandato de toda a história de São Paulo e, ufa!, o melhor governador paulista em exercício, faria muito mais pelo Brasil do que esse analfabeto do Lula e sua curriola do PT, que nunca tiveram competência para nada - e só chegaram onde chegaram por pura sorte.
Ainda bem que o Serra não é candidato a presidente, porque se fosse, o mundo não ia ter a menor graça.

O papel de cada um

O comportamento da economia brasileira em geral, que retoma a atividade do período pré-crise econômica global, levanta algumas reflexões sobre o papel do Estado e da iniciativa privada como indutores do desenvolvimento.
E, se de um lado já parece consenso que foram as ações anticíclicas do governo que apressaram a recuperação, por outro ainda está mal explicado o papel que tiveram os empresários no aprofundamento dos problemas pelos quais o país passou neste último ano.
A precipitação com que alguns setores industriais, como o automobilístico, por exemplo, iniciaram demissões em massa, contribuiu sobremaneira para a deterioração do cenário econômico, causando ainda graves problemas sociais.
Todos sabem que a economia é um mecanismo complexo, que só funciona bem quando todas as suas peças estão ajustadas - se uma emperra, várias outras se ressentem do enguiço e o movimento passa a ter sobressaltos.
Agindo da maneira afoita como agiu, a indústria afetou todo o funcionamento da máquina econômica. E prejudicou a si mesma, pois bancou gastos desnecessários com dispensas de pessoal imotivadas - as montadoras de veículos iniciaram as recontratações poucos meses depois de terem demitido seus empregados.
O desemprego no Brasil, felizmente, volta hoje ao nível baixo que exibiu em boa parte do governo Lula. É bem provável que os índices melhorem ainda mais neste fim de ano. Mas poderiam estar ainda mais satisfatórios se os empresários brasileiros finalmente saíssem do período pré-capitalista em que vivem e ingressassem na era contemporânea, que exige atitudes e decisões mais sofisticada e mais responsáveis com a sociedade.
Se esta crise serviu para alguma coisa foi para mostrar a verdadeira face das pessoas e das instituições. Alguns passaram com louvor no teste; outros, se afundaram ainda mais em sua mesquinharia e irrelevância.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O choro dos inocentes


A pesquisa CNT-Sensus que mostrou quanto querido pelo povo brasileiro é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso provocou reações de vários tipos. A mais inusitada veio de alguns conhecidos jornalistas, que abandonaram todo e qualquer pudor que tiveram um dia e escreveram apaixonados textos nos quais fazem veementes defesas do Príncipe e seu reinado - sem nenhuma preocupação com a veracidade dos fatos narrados, é bom que se diga.
Como Gilberto Dimenstein, da Folha, que intitulou a sua obra-prima de "FHC é o grande padrinho de Lula". Aí vai para a apreciação de todos:

Leio análises falando que um dos pontos vulneráveis de José Serra --e teria aparecido na mais recente pesquisa mostrando a subida de Dilma Roussef-- é Fernando Henrique Cardoso, com alta taxa de rejeição. Por isso, o ex-presidente seria escondido na campanha. A verdade é que, por outros motivos, FHC é o grande padrinho de Lula --qualquer pessoa com um mínimo de equilíbrio terá de concordar com isso.
Em essência, o governo Lula é a continuidade da gestão anterior --e aí está um dos pontos mais inteligentes do presidente. Ele pegou a inflação baixa, um país na rota do crescimento, as bases de seu mais importante programa social em andamento (o Bolsa Família). As finanças públicas tinham passado por medidas importantes como a lei de responsabilidade fiscal.
Lula soube aprimorar o que recebeu. Radicalizou a política social, manteve as bases econômicas. Para completar, além da sorte com a descoberta do pré-sal, passou por uma época de crescimento mundial --com exceção dos últimos 12 meses. Não herdasse o que herdou, teria muito menos condições de angariar um prestígio tão grande.
É tolice não reconhecer a habilidade de Lula e seu extraordinário pragmatismo. Mas é tolo não reconhecer que FHC é seu grande padrinho, cuja alta taxa rejeição faz parte daquelas injustiças --mas será reparada pela história.
Ninguém no PSDB, a começar por José Serra, consegue nem remotamente ter a postura de estadista de FHC.

É um clássico.
Já o rodado Augusto Nunes, que agora presta serviços à Abril, fez uma longa entrevista com o ex-presidente e não se conteve nos elogios ao "padrinho de Lula". Na apresentação da "última etapa do passeio pela história real de um país desmemoriado", como gongoricamente intitulou a última parte de seu trabalho, ele escreve outra pérola deste recente movimento de resgate à dignidade perdida de FHC.
Também merece ir para o trono:

A entrevista com Fernando Henrique Cardoso confirma que, nem faz tanto tempo assim, existiu vida inteligente no centro do poder. Também ensina que é possível fazer política sem revogar o convívio dos contrários e sem recorrer à lei da selva para ganhar a eleição.

Com tantos e tão diligentes defensores, FHC deve estar agora mais tranquilo. Afinal, pior do que enfrentar a solidão do poder é amargar o esquecimento em vida.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Fardo pesado


A última pesquisa da CNT-Sensus, que mostra a queda acentuada das intenções de voto em José Serra, torna ainda mais explícita a principal dificuldade que o tucano terá em sua campanha - se é que vai resolver mesmo ser o candidato. Trata-se da associação de seu nome com o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
“A pesquisa mostra que 49,3% não votaria em um candidato apoiado pelo ex-presidente, enquanto apenas 16% não votaria no apoiado por Lula”, diz Ricardo Guedes, diretor do Instituto Sensus, para quem o principal motivo da queda de Serra é a sua lugação com FHC, "que não é um bom cabo eleitoral".
Dessa forma, fica fácil perceber qual vai ser a estratégia de Dilma Rousseff: colar o seu nome ao de Lula e procurar vincular o de Serra ao de FHC.
A pesquisa deve ter provocado um princípio de curto circuito nas hostes tucanas. Principalmente nos serristas, que agora têm bons motivos para se preocupar, pois, afinal, não será de uma hora para outra que o governador paulista conseguirá se desvencilhar do cadáver político que FHC se tornou.
Boa parte de sua propaganda é feita usando a sua biografia passada, louvando as ações que realizou quando era justamente ministro de FHC.
Como faltam vários meses ainda para que a campanha pegue fogo, a pesquisa serve apenas para indicar algumas linhas de ação.
E também para reafirmar um fato que certamente merecerá, no futuro, estudos mais aprofundados: a rejeição popular à figura de FHC, que embora tenha sido duas vezes presidente da República, nunca foi capaz de conquistar aquilo que é mais importante para um político, ou seja, o coração do eleitor.

domingo, 22 de novembro de 2009

Jogo obscuro


A confederação européia de futebol, a Uefa, informou outro dia que desbaratou um enorme esquema de fraudes em jogos de importantes torneios continentais. Mais de 200 pessoas estariam envolvidas na marmelada. A polícia e outros órgãos de Justiça de diversos países já estão trabalhando para limpar a reputação do esporte.
No Brasil, em 2005, um escândalo semelhante foi descoberto: o árbitro Edilson Pereira de Carvalho arrumou vários resultados para beneficiar uma quadrilha de apostadores. Como resultado, vários jogos tiveram de ser refeitos, mas o campeonato brasileiro daquele ano ficou indelevelmente manchado.
O caso extrapolou a esfera esportiva e foi parar na área criminal. Este ano, porém, foi encerrado por uma falha processual. Tanto o ex-árbitro como seus cúmplices estão por aí, livres e felizes para aprontar quantas mais quiserem.
Poucos dias atrás, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, atual presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras, foi condenado por um tribunal esportivo a nove meses de suspensão por ter declarado que o árbitro Carlos Eugênio Simon, que anulou, ninguém sabe porque, um gol do de seu clube contra o Fluminense, era, entre outras coisas, "vigarista" e estava "na gaveta de alguém". Belluzzo também ameaçou dar uns tapas em Simon caso o encontrasse.
O destempero do professor Belluzzo ganhou merecidas manchetes nas páginas de esportes dos jornalões, mas as suas graves acusações se perderam no ar. Inexplicavelmente, a imprensa se fez de cega e surda. Pior, comparou o intelectual, sério e equilibrado Belluzzo a tantas figuras caricatas que fazem a delícia do mundo futebolístico.
Para os nossos jornalistas, o pacato professor que se transformou em cartola, teve apenas um arroubo de torcedor. Um desses tais cronistas esportivos afirmou que Belluzzo havia dado uma "euricada", referindo-se ao truculento ex-presidente do Vasco da Gama. Outro preferiu lembrar os tempos que passou na faculdade de jornalismo com Simon para jurar que o árbitro gaúcho é um sujeito sério, honesto e trabalhador.
O testemunho de caráter até que é válido nessa história, mas muito mais importante que ele seria se os nossos solertes repórteres esportivos aproveitassem, como se diz nas redações, o "gancho" da explosão verbal de Belluzzo, para fazer o que se espera desse tipo de profissional, ou seja, simplesmente investigar, sem dar a bola a nenhuma teoria conspiratória, mas também sem excluir qualquer hipótese.
O que mais se ouve e lê quando um árbitro comete um erro crasso - como foi o de Simon - é que, por ele ser "humano", tem todo o direito de falhar. O mesmo raciocínio não se aplica aos jogadores: quando um atacante perde um gol fácil, ele é simplesmente um grosso e merece ser punido, ou seja, sair do time titular.
O exemplo mostra como a imprensa brasileira trata o futebol superficialmente, embora seja consenso que o esporte se configure na maior paixão nacional, um dos negócios mais rentáveis que existem, e um bem cultural inestimável.
Em recente entrevista, um ou dois dias depois de ser punido pelo tribunal esportivo, o professor Belluzzo sintetizou a angústia de um homem que tinha a pretensão de contribuir para mudar o status quo do futebol brasileiro. "Antes eu me divertia com o futebol e me aborrecia com a economia, hoje eu me aborreço com o futebol e me divirto com a economia", disse ele.
Belluzzo agora já está consciente que nem as suas acusações serão investigadas por quem quer que seja, nem que nada mudará no futebol brasileiro durante muito tempo.
Um ano e pouco à frente da administração do Palmeiras foi o suficiente para tirar dele a ilusão de que seria capaz de levar um pingo de modernidade à gestão de seu clube - ou uma réstia de luz às trevas profundas em que vivem seus pares.
É uma pena. O povo brasileiro, esse que gasta boa parte de seu ordenado para ir aos estádios sujos e perigosos; esse que passa boas horas do dia realmente se importando com quem o técnico de seu time vai escalar; esse que ri e chora na tarde/noite dos domingos; esse que tem uma bandeira verde, vermelha, azul, branca, preta, nova ou velha, fincada em seu coração, merece mais respeito, mais seriedade.
Esse povo acredita que no campo são 11 contra 11 e que vence o melhor.
Mas será que isso é mesmo verdade?

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A raposa no galinheiro


Em São Paulo, num passado recente, já caíram pontes e viadutos, o buraco do metrô ruiu, os bandidos do PCC declararam guerra contra a polícia, os policiais civis e militares trocaram tiros entre si, o caos no trânsito urbano virou rotina, a educação e a saúde são de Quinto Mundo, qualquer chuva é suficiente para provocar enchentes e blecautes em bairros inteiros.
Que tragédia falta se abater sobre o povo paulista para que o mito da eficiência da gestão tucana seja, pelo menos, questionado?
São anos e mais anos de administrações medíocres - para dizer o mínimo - que não merecem da imprensa, tão eficaz em outros casos, nenhuma contestação.
É como se São Paulo fosse uma ilha de prosperidade, bem estar e excelência, num mundo cheio de mazelas e problemas de todos os tipos.
Enquanto isso, os números frios das pesquisas mostram o declínio econômico do gigante, a corrosão dos indicadores sociais, num movimento que parece inexorável.
Como explicar esse retrocesso se não como consequência dessa sucessão de governos incompetentes?
Ontem mesmo o governador José Serra mostrou como se comportam os gestores tucanos frente a uma adversidade qualquer, ao responder a uma pergunta sobre o que achava de a fiscalização das obras públicas ser responsabilidade dos próprios construtores.
A sua resposta - "não vejo nada demais, é assim em todo lugar, o Estado não tem gente suficiente para fiscalizar todas as obras que faz" - é moldura perfeita para esse comportamento autista, que despreza não só o bom-senso, mas a inteligência dos pobres cidadãos paulistas.
Pois até um idiota sabe o risco de deixar a raposa tomar conta do galinheiro.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Gazeteiros e folgazões

O persistente processo de desmoralização que o Congresso sofre de uns anos para cá não é algo que possa ser interrompido de uma hora para outra. Afinal, é alimentado pelos próprios parlamentares, que se mostram interessados apenas em usar os benefícios do cargo em prol de interesses pequenos, mesquinhos, muitas vezes sorrateiros.
Ao convocar uma vidente para dar explicações sobre o blecaute da semana passada, o senador tucano Arthur Virgílio dá exemplo cabal do que é capaz de fazer um desses parlamentares para chamar a atenção da mídia para si. E ainda justifica a piada de mau gosto como se ela fosse alguma peça de um meticuloso trabalho investigativo.
Arthur Virgílio, em que pese a sua absoluta irrelevância como parlamentar, incapaz de formular uma proposta sequer que justifique fazer parte de uma instituição como o Senado - basta recordar o absurdo de seu projeto para unificar o horário da região norte do país - é uma das lideranças oposicionistas mais frequentemente citadas pela imprensa.
Ou seja, há quem o leve a sério - e talvez por isso ele se julgue no direito de fazer o papel de palhaço e dessa forma constranger ainda mais aquela que já foi uma casa importante para a nação.
É justo dizer que o achincalhe não parte apenas do tucano amazonense. Como ele há inúmeros outros, inclusive do próprio bloco governista, como esse inacreditável Eduardo Suplicy, que, quanto mais velho fica, mais se apega ao vale-tudo para se promover.
Nenhuma pessoa de mediana inteligência supõe que uma democracia funcione a contento sem um Legislativo atuante. Do mesmo modo, é lícito dizer que quando esse Poder claudica da maneira como o nosso, a República fica manca, o país anda mais devagar, o processo de consolidação das instituições tropeça.
Ninguém quer que o Parlamento seja uma torre de marfim habitada por sábios inatingíveis ou monges inatacáveis. Como representação da vontade popular, deve ser um microcosmo da sociedade brasileira, com suas virtudes e defeitos. O que não se pode admitir, porém, é que as suas funções sejam completamente distorcidas e ele passe a ser, simplesmente, um local para as reuniões de alegres gazeteiros e despreocupados folgazões.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Um olhar apaixonado


São muitos os que, hoje em dia, não se conformam em ver que o Brasil está, aos poucos, superando o imenso complexo de vira-latas que o impedia de ir para a frente.
Essas pessoas se horrorizam ao ver o país participando de importantes fóruns internacionais, torcem o nariz quando o presidente Lula é elogiado por publicações de renome ou por lideranças do badalado Hemisfério Norte. Fazem questão de se manter à margem desse movimento de resgate da auto-estima nacional. Creem que o Brasil deve, quando muito, se conformar com o papel de coadjuvante na história do mundo.
Faço essas considerações ao evocar os 50 anos da morte do gênio chamado Villa-Lobos. Vejo que há comemorações por todos os lados e que, finalmente, a grande maioria dos artistas e intelectuais se deu conta de que figuras como ele não nascem todos os dias, são seres raríssimos, que surgem para, com seu extraordinário brilho, aperfeiçoar a trajetória do homem neste planeta.
E quando me dou conta de quantas vezes já escutei e me emocionei com a música de Villa-Lobos fico pensando em como deve ser triste a vida desse pessoal que vira a cara para o seu próprio país, para os tesouros que ele guarda, e sai por aí macaqueando os últimos modismos do lixo cultural que é bombardeado pelas potências do norte.
Uma terra que tem como filho um artista como Villa-Lobos é uma nação predestinada a dar certo. Basta que ela passe a ver a si mesma com os mesmos olhos que muitos, como esse extraordinário Villa-Lobos, a retrataram, por meio de sons, cores, formas, palavras - com olhos cheios de paixão.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Informação para todos

As propostas do governo que deverão ser levadas à 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que será realizada no mês que vem em Brasília, antecipadas pela Folha, têm o propósito de estabelecer um marco legal para o setor. Só por isso já merecem ser aplaudidas. Mas como mexem - e muito - com os privilégios largamente usufruídos pelas empresas de comunicação do país, deverão ser objeto de uma feroz campanha contrária.
A Confecom foi boicotada pelos principais grupos de mídia, que apenas aguardam a sua realização - e seus resultados - para começarem a agir.
Como muitos dos congressistas são também donos de rádio, televisão e jornais, nem será preciso convencê-los a bombardear no nascedouro qualquer projeto de lei que o Executivo envie ao Parlamento para transformar as deliberações da Confecom em um novo marco legal para setor.
O poder do patronato é imenso. Basta lembrar que, recentemente, conseguiu que o Supremo Tribunal Federal acabasse com a Lei de Imprensa e com a obrigatoriedade do diploma de nível superior para o exercício do jornalismo.
De qualquer modo, vai ser interessante conhecer os argumentos dos nossos empresários para rejeitar medidas que, claramente, visam democratizar a informação.
Um resumo do que o governo pretende levar à Confecom está abaixo, extraído da notícia da Folha:

1) Institucionalização do direito de resposta e indenização a prejudicados por profissionais e empresas de mídia;
2)Criação de mecanismos menos onerosos de verificação de audiência e circulação para permitir a jornais e rádios menores receber publicidade institucional ou de utilidade pública;
3)Criação de mecanismos de compra de insumos básicos, como o papel-jornal, para os pequenos jornais, similares aos modelos disponíveis aos grandes para melhorar sua competitividade;
4)Na área de radiodifusão (rádio e TV), garantir que a distribuição de outorgas em tecnologia digital seja equitativa entre os sistemas público, privado e estatal - o que permitiria a ampliação da rede da TV Brasil;
5)Criação de canais digitais de TV dos ministérios da Cultura, da Educação e das Comunicações, além de distribuir canais para sindicatos e movimentos sociais;
6)Proibir ocupantes de cargos públicos de receber outorgas de rádio e TV. Hoje, há limitações para congressistas;
7)Regular o proselitismo religioso em rádio e TV;
8)Reforçar a fiscalização para coibir a venda de horário na grade de TVs e rádios;
9)Garantir investimento publicitário em canais comunitários;
10)Defesa de uma política para restringir a propriedade cruzada de veículos de comunicação e da obrigatoriedade das emissoras de TV de veicular programas produzidos por produtoras independentes.

Como se vê, são sugestões absolutamente lógicas - e necessárias para que a informação não seja privilégio de uns poucos e sim um direito para todos.

domingo, 15 de novembro de 2009

O silêncio comprometedor


A Folha revela que FHC finalmente vai reconhecer o filho que teve com uma jornalista que vive há anos na Europa. Já tratei do assunto em crônica publicada no dia 5 de abril de 2007.
O caso todo é nebuloso.
Como é possível, num país em que a imprensa funciona com inteira liberdade, inclusive para estraçalhar reputações, condenar sem provas, achincalhar qualquer um que se atreve a ir contra seus interesses, que o fato, notório em todas as redações, tenha sido sonegado do público por 18 longos anos?
De duas, uma: ou a imprensa brasileira não vale absolutamente nada, ou FHC tem mais poder do que se imaginava.
Ou tudo pode ter sido, apenas, uma notável confluência de interesses: de um lado, um político ambicioso, de outro, uma instituição gananciosa.
O acerto, que parece vigente até hoje, mostrou-se excelente para as partes, péssimo para a o país.

sábado, 14 de novembro de 2009

Perguntas e respostas

Clipartheaven.com

O acidente no rodoanel paulista mostra que o tão decantado modelo de gestão tucano é composto por 90% de marketing - os 10% restantes ficam a critério do freguês.
O governo José Serra só não é um desastre completo porque a força de São Paulo não permite que isso ocorra.
E, a um ano e pouco das eleições presidenciais, já dá para, com base em tudo o que o Serra fez - ou, no seu caso, deixou de fazer - levantar algumas dúvidas que atormentam o eleitor que se esforça por não se deixar levar pelos títulos das matérias dos jornalões.
São dez questões bem simples, mas nem por isso sem importância:
Câmbio: Serra vive criticando a apreciação do real em relação ao dólar. Mas não diz o que deve ser feito - a menos que pretenda impor um câmbio artificial ao país, como no governo FHC. Afinal, quem não se lembra do R$ 1 = US$ 1, que quebrou milhares de empresas?
Política econômica: os tucanos dizem que tudo o que Lula fez foi seguir a cartilha do PSDB, mas ao mesmo tempo criticam a condução macroeconômica do governo atual. Vivem, portanto, numa contradição.
Gastos do governo: segundo o bê-á-bá tucano-pefelista, o quadro do funcionalismo público federal é inchado, ineficiente e partidarizado. Só que a grande maioria dos servidores foi contratado via concurso, para áreas carentes como educação e saúde. O que fazer? Desmontar uma estrutura absolutamente necessária em virtude das carências sociais do país?
Programas sociais: no início, o Bolsa Família foi até chamado de Bolsa Esmola. Com o tempo, as críticas se reduziram, mas é claro como o sol do meio-dia que os governos tucanos desprezam, até quanto podem, as demandas da população miserável. Serra nunca foi claro sobre se daria continuidade aos programas sociais de Lula, principalmente o Bolsa Família. Mas é bom lembrar que existem muitos outros menos badalados, como o Luz Para Todos, que são sucesso absoluto.
Movimentos sociais/sindicais: claro que serão criminalizados. MST vai virar sinônimo de terrorismo.
Privatização: bem, resta pouca coisa rentável. Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal são as jóias da coroa. E alvos preferenciais. Há ainda muito da infra-estrutura de transportes, como aeroportos, portos, rodovias e hidrovias dando sopa. Mas os tucanos são excelentes nisso e saberão achar muito mais.
Relações externas/diplomacia: no governo Lula, o Brasil deixou de ser um quintal dos Estados Unidos. O país abriu o leque das relações comerciais, foi atrás de mercados variados, aceitou disputar o protagonismo em importantes fóruns internacionais, como a OMC. Sua diplomacia, antes uma massa amorfa e indistinta, passou a ser respeitada. Voltaremos à era FHC, em que a posição preferida do país era ficar de joelhos aos "irmãos" americanos?
Carga fiscal: o mundo perfeito dos tucanos-pefelistas é aquele em que apenas os pobres pagam impostos. Mas apesar de todo o cinismo dessa posição, eles sabem muito bem que o Estado não vive sem tributos. Serra que o diga. Ele é um mestre da coleta. Adora encher os cofres paulistas. Portanto, o discurso de que o Brasil é campeão em tributação não passa de conversa mole, engana trouxa, bobagem para ganhar votos. Não existe um só governo que viva sem taxar seus cidadãos. A conta que importa é aquela que mostra que o imposto deu ou não um retorno satisfatório à sociedade. E nesse ponto o Brasil tem avançado muito.
Juros: Outro tema que Serra se diz um especialista. Mas ele parece esquecer que foi no governo do amigo FHC, a quem serviu muito bem, que os juros estiveram na estratosfera. O que o prezado governador não explica é como o Executivo pode interferir numa incumbência do Banco Central - a menos que ele também queira presidir a autoridade monetária.
Democracia: O Brasil vive um extraordinário período democrático - imprensa absolutamente livre, instituições funcionando na plenitude, eleições a cada dois anos, pluralismo político, liberdade religiosa... Parece que o país finalmente encontrou o seu caminho. Entre os chamados BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o grupo de emergentes que está a um passo do Primeiro Mundo, é o que mais se aproxima do modelo civilizatório ocidental, institucionalizado desde o fim do século 18 e plenamente aceito como o único capaz de levar a felicidade aos seus cidadãos. Alguém que não é capaz de ler uma crítica, a mais amena possível, nos jornais, sem pedir a cabeça do pobre autor ao patrão, não parece ser a pessoa indicada para levar avante o processo de consolidação da democracia brasileira. Não é mesmo, José Serra?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Apagão mental


A tentativa tosca de politizar uma questão absolutamente técnica que foi o blecaute de terça-feira mostra quanto despreparada, sem bandeira e sem programa se encontra a oposição.
Claro que os responsáveis pela área de energia do país ainda devem explicações consistentes sobre o que aconteceu. Espera-se que eles as deem, pois são pagos para isso.
E, também, que se esforcem para que acidentes do tipo não voltem a ocorrer - e, se acontecerem, sejam prontamente resolvidos.
Mas o que a oposição clama não é por explicações. Para ela, os culpados já estão definidos, e são, pela ordem, o presidente Lula e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, sua candidata a sucedê-lo.
As ações de tucanos e pefelistas beiram o patético, como esse pedido para chamar Dilma ao Congresso para dar explicações sobre o ocorrido.
Como não sabe de que maneira se opor aos êxitos do governo Lula, os oposicionistas instauraram um vale-tudo eleitoral que expõe a público os seus defeitos mais profundos.
Na quinta-feira, por exemplo, quando a ministra Dilma concedia uma entrevista coletiva, depois de uma reunião com o presidente Lula e integrantes do setor energético, os jornais recebiam, via e-mail, um release da assessoria do deputado federal Ronaldo Caiado, o líder do DEM.
De tão ridículo, merece ser transcrito na íntegra. E não vale nem a pena comentá-lo. Ele é auto-explicativo no que tem de grotesco:

“Onde está Dilma? “, questiona Caiado

O líder do Democratas, Ronaldo Caiado (GO) chamou a atenção nesta quinta-feira (12) para o fato da ministra da Casa Civil, e primeira ministra de Minas e Energia do segundo mandato do governo Lula, Dilma Rousseff, não ter vindo à público dar explicações sobre o apagão que atingiu o Brasil essa semana. "Onde está Dilma? Sempre puxou para si as glórias do modelo elétrico do país, e agora, desaparece e não dá explicação alguma", disse. Caiado chamou a atenção para as consequências à população brasileira, primeiramente aos hospitais e às UTIs, onde dezenas de pacientes internados passaram por risco de vida. "Com aqueles hospitais e aquelas estruturas sem a condição mínima de ter um gerador, as crianças ou adultos, em casos graves, tiveram de ser transferidos para outras maternidades ou outros hospitais, sem dizer que até este momento nós ainda não temos o abastecimento de água na cidade de São Paulo", indignou-se.
O democrata apresentou alguns dados que demonstram a incapacidade técnica da ministra Dilma de gerir qualquer assunto. De acordo com os números da Assessoria de Orçamento do Partido, dos mais de R$ 12 milhões da dotação autorizada em 2009 apenas R$ 483 mil foram pagos. Estão excluídos os investimentos feitos pelas estatais. Para ter acesso a esses dados, Caiado fez um requerimento de informações na última quarta-feira, 11.
Para Caiado, esses números demonstram, mais uma vez, a falha do governo em gerenciar uma situação de risco no Brasil. "Com diárias, o gasto do governo chegou a R$ 584 milhões este ano", revelou, de acordo com dados do Siafi. "Tecnicamente, Dilma falhou. Politicamente, fugiu. São sinais extremamente negativos. Como é que uma técnica como essa deseja governar o país? Quer dizer que amanhã, se ela estivesse à frente do governo, na primeira crise que tivéssemos que enfrentar, nós não íamos achá-la. Desapareceu. Sumiu", concluiu o líder.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Vozes das trevas


A hora e pouco que passei no breu ontem à noite, tentando saber o que havia acontecido no mundo, foi, paradoxalmente, iluminadora. Descobri as várias formas do terror.
O único som na sala do apartamento vinha do radinho de pilha e das buzinas longínquas dos carros, nove andares abaixo.
Meus dedos giravam o botão do dial à procura de alguma voz que me tirasse da ignorância. Foi um exercício apavorante.
- E lembro que há uns dias ouvi uma entrevista de um ministro falando que não falta mais energia no país - dizia o repórter esportivo com forte sotaque gaúcho, pego para trabalhar no meio da tempestade, e sem saber muito o que fazer.
- Qual a situação do trânsito na cidade agora? - perguntava o plantonista de outra rádio paulistana "especializada" em informação, a um perplexo diretor da CET, ignorando o simples fato de que, naquele momento, um blecaute paralisava a metrópole.
- Estou na frente da sede do Ministério das Minas e Energia e ele está todo iluminado - dizia, com voz grave, como se tivesse feito a mais séria denúncia, o "correspondente" em Brasília dessa outrora famosa emissora de São Paulo.
Mas nada se igualou àquela voz de uma conhecida "cientista política" que causa arrepios a cada alocução. Não sei se por sorte ou infortúnio, peguei a frase no meio:
-...e temos de lembrar que o presidente Lula isentou de IPI os eletrodomésticos justamente na véspera do verão. Então ele não sabia que viria um verão, que todo ano vem um verão, e as pessoas ligam o ar-condicionado? - e por aí afora.
A doutora em apocalipse tinha como interlocutora uma moça (presumo) com voz de veludo, que contrastava de modo chocante com a sua. Foi delas o diálogo que me fez apagar todas as velas e ir dormir o sono dos justos:
- Estamos todos na escuridão, eu estou aqui no Rio na escuridão, você está aí em São Paulo na escuridão - sentenciou a rainha das trevas.
E a voz suave, doce e macia, respondeu:
- Lúcia, aqui nós temos gerador, estamos num estúdio todo iluminado.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A conta dos erros


A decisão da Uniban de revogar a expulsão da aluna que quase foi linchada por uma turba de estudantes, com a complacência de funcionários e professores, apenas corrobora a opinião (quase) geral de que aquilo não é uma universidade, mas um negócio como outro qualquer.
Poderia ser uma concessionária de veículos, ou um supermercado - por acaso é uma instituição de ensino.
Como a nota sobre a reintegração da aluna não explica as razões que levaram a direção da Uniban a tomar essa decisão, é permitido especular que isso se deveu à imensa repercussão negativa do caso. Somadas as colunas de lucros e prejuízos, o dono ficou alarmado - e deu a contraordem.
Os jornais informam hoje que a Uniban cresceu quando mudou o perfil do chamado público-alvo, que passou da classe média para a "classe C menos", tendo, consequentemente, de baixar o valor das mensalidades para captar mais alunos. Inevitavelmente, contratou professores de qualidade inferior.
O que já era ruim ficou, então, pior.
Escolas como a Uniban existem aos montes no Brasil. Nascidas no auge do neoliberalismo, são filhotes desse sistema que não consegue enxergar cidadãos, mas consumidores, e não consegue trabalhar por princípios, mas por metas.
Como estão ainda presas ao passado e têm a esperança de que o futuro seja uma volta aos bons tempos em que tudo era permitido, expõem-se hoje a toda sorte de contradições inerentes a uma sociedade em contínua transformação.
Se não mudarem e passarem a ser realmente escolas e não fábricas de diplomas, vão acabar fechando, dando lugar a empresários mais inteligentes. Como deve ser no capitalismo verdadeiro, não esse arremedo que a Uniban gostaria que sempre existisse.

domingo, 8 de novembro de 2009

Em nome da moral e da ética


Quem entra no site da tal Uniban, aquela "universidade" que expulsou a aluna que quase foi linchada por uma turba de estudantes, com a complacência de funcionários e professores, por estar usando um minivestido, lê coisas desse tipo:

Missão:
"Promover a formação integral do indivíduo, por meio da capacitação profissional, da produção e aplicação do conhecimento, da promoção da cultura, do respeito aos valores éticos-morais, através de um processo educativo contínuo de qualidade, voltado para o desenvolvimento da sociedade."

Valores:
"ÉTICA - Observar os mais elevados princípios e padrões éticos, dando exemplo de solidez moral, honestidade e integridade."
"RESPONSABILIDADE SOCIAL - Exercer a cidadania contribuindo, por meio da educação e das atividades sociais e culturais, para o desenvolvimento da sociedade e a promoção do bem comum."
"GESTÃO - Valorizar e seguir os princípios da Transparência e Responsabilidade Corporativa. Para isso, um sistema de gestão da qualidade administrativa e acadêmica está implementado como instrumento de monitoramento do desempenho das atividades acadêmicas desenvolvidas na UNIBAN."
"QUALIDADE - Estimular a inovação e a criatividade, de forma planejada e integrada, propiciando a perenidade da organização e a busca da melhoria contínua."
"SER HUMANO - Propiciar tratamento justo a todos, valorizando o trabalho em equipe, o alto grau de sinergia e integração, estimulando um excelente ambiente humano de trabalho."

E, na
"Apresentação":

"A Universidade se apresenta como conservadora e contemporânea, uma ambiguidade necessária. Conservadora porque no âmbito educacional preserva, cultiva e mantém, no todo, um rígido código disciplinar, sustentado por valores morais e éticos, fundamentais para que uma estrutura não se desintegre. Moderna porque, num mundo globalizado, está afinada com a tecnologia.
A modernidade da UNIBAN se expressa igualmente nos currículos, que encaminham o aluno a uma crescente autonomia intelectual e profissional; na forma de lecionar, que desenvolve o senso crítico dos estudantes; na maneira de o aluno chegar às informações; na aprendizagem acelerada; na constante motivação e estímulo à criatividade dos seus alunos; na formação de não só bons empregados, mas também empreendedores."

A expulsão, se deu, segundo a "universidade", em razão "do flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade".
E assim, a paz voltou a reinar e todos ficaram felizes.