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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Vozes das trevas


A hora e pouco que passei no breu ontem à noite, tentando saber o que havia acontecido no mundo, foi, paradoxalmente, iluminadora. Descobri as várias formas do terror.
O único som na sala do apartamento vinha do radinho de pilha e das buzinas longínquas dos carros, nove andares abaixo.
Meus dedos giravam o botão do dial à procura de alguma voz que me tirasse da ignorância. Foi um exercício apavorante.
- E lembro que há uns dias ouvi uma entrevista de um ministro falando que não falta mais energia no país - dizia o repórter esportivo com forte sotaque gaúcho, pego para trabalhar no meio da tempestade, e sem saber muito o que fazer.
- Qual a situação do trânsito na cidade agora? - perguntava o plantonista de outra rádio paulistana "especializada" em informação, a um perplexo diretor da CET, ignorando o simples fato de que, naquele momento, um blecaute paralisava a metrópole.
- Estou na frente da sede do Ministério das Minas e Energia e ele está todo iluminado - dizia, com voz grave, como se tivesse feito a mais séria denúncia, o "correspondente" em Brasília dessa outrora famosa emissora de São Paulo.
Mas nada se igualou àquela voz de uma conhecida "cientista política" que causa arrepios a cada alocução. Não sei se por sorte ou infortúnio, peguei a frase no meio:
-...e temos de lembrar que o presidente Lula isentou de IPI os eletrodomésticos justamente na véspera do verão. Então ele não sabia que viria um verão, que todo ano vem um verão, e as pessoas ligam o ar-condicionado? - e por aí afora.
A doutora em apocalipse tinha como interlocutora uma moça (presumo) com voz de veludo, que contrastava de modo chocante com a sua. Foi delas o diálogo que me fez apagar todas as velas e ir dormir o sono dos justos:
- Estamos todos na escuridão, eu estou aqui no Rio na escuridão, você está aí em São Paulo na escuridão - sentenciou a rainha das trevas.
E a voz suave, doce e macia, respondeu:
- Lúcia, aqui nós temos gerador, estamos num estúdio todo iluminado.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A conta dos erros


A decisão da Uniban de revogar a expulsão da aluna que quase foi linchada por uma turba de estudantes, com a complacência de funcionários e professores, apenas corrobora a opinião (quase) geral de que aquilo não é uma universidade, mas um negócio como outro qualquer.
Poderia ser uma concessionária de veículos, ou um supermercado - por acaso é uma instituição de ensino.
Como a nota sobre a reintegração da aluna não explica as razões que levaram a direção da Uniban a tomar essa decisão, é permitido especular que isso se deveu à imensa repercussão negativa do caso. Somadas as colunas de lucros e prejuízos, o dono ficou alarmado - e deu a contraordem.
Os jornais informam hoje que a Uniban cresceu quando mudou o perfil do chamado público-alvo, que passou da classe média para a "classe C menos", tendo, consequentemente, de baixar o valor das mensalidades para captar mais alunos. Inevitavelmente, contratou professores de qualidade inferior.
O que já era ruim ficou, então, pior.
Escolas como a Uniban existem aos montes no Brasil. Nascidas no auge do neoliberalismo, são filhotes desse sistema que não consegue enxergar cidadãos, mas consumidores, e não consegue trabalhar por princípios, mas por metas.
Como estão ainda presas ao passado e têm a esperança de que o futuro seja uma volta aos bons tempos em que tudo era permitido, expõem-se hoje a toda sorte de contradições inerentes a uma sociedade em contínua transformação.
Se não mudarem e passarem a ser realmente escolas e não fábricas de diplomas, vão acabar fechando, dando lugar a empresários mais inteligentes. Como deve ser no capitalismo verdadeiro, não esse arremedo que a Uniban gostaria que sempre existisse.

domingo, 8 de novembro de 2009

Em nome da moral e da ética


Quem entra no site da tal Uniban, aquela "universidade" que expulsou a aluna que quase foi linchada por uma turba de estudantes, com a complacência de funcionários e professores, por estar usando um minivestido, lê coisas desse tipo:

Missão:
"Promover a formação integral do indivíduo, por meio da capacitação profissional, da produção e aplicação do conhecimento, da promoção da cultura, do respeito aos valores éticos-morais, através de um processo educativo contínuo de qualidade, voltado para o desenvolvimento da sociedade."

Valores:
"ÉTICA - Observar os mais elevados princípios e padrões éticos, dando exemplo de solidez moral, honestidade e integridade."
"RESPONSABILIDADE SOCIAL - Exercer a cidadania contribuindo, por meio da educação e das atividades sociais e culturais, para o desenvolvimento da sociedade e a promoção do bem comum."
"GESTÃO - Valorizar e seguir os princípios da Transparência e Responsabilidade Corporativa. Para isso, um sistema de gestão da qualidade administrativa e acadêmica está implementado como instrumento de monitoramento do desempenho das atividades acadêmicas desenvolvidas na UNIBAN."
"QUALIDADE - Estimular a inovação e a criatividade, de forma planejada e integrada, propiciando a perenidade da organização e a busca da melhoria contínua."
"SER HUMANO - Propiciar tratamento justo a todos, valorizando o trabalho em equipe, o alto grau de sinergia e integração, estimulando um excelente ambiente humano de trabalho."

E, na
"Apresentação":

"A Universidade se apresenta como conservadora e contemporânea, uma ambiguidade necessária. Conservadora porque no âmbito educacional preserva, cultiva e mantém, no todo, um rígido código disciplinar, sustentado por valores morais e éticos, fundamentais para que uma estrutura não se desintegre. Moderna porque, num mundo globalizado, está afinada com a tecnologia.
A modernidade da UNIBAN se expressa igualmente nos currículos, que encaminham o aluno a uma crescente autonomia intelectual e profissional; na forma de lecionar, que desenvolve o senso crítico dos estudantes; na maneira de o aluno chegar às informações; na aprendizagem acelerada; na constante motivação e estímulo à criatividade dos seus alunos; na formação de não só bons empregados, mas também empreendedores."

A expulsão, se deu, segundo a "universidade", em razão "do flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade".
E assim, a paz voltou a reinar e todos ficaram felizes.

sábado, 7 de novembro de 2009

Mistura de Vargas e JK

Maria da Conceição Tavares, 80 anos, 55 de Brasil, mestra de um sem número de economistas famosos ou nem tanto, ex-deputada federal pelo PT do Rio, personalidade exuberante, sempre atenta ao mundo que não para de girar.
Sua última entrevista foi à repórter Vera Durão, do "Valor". O trecho abaixo é um diagnóstico sucinto do governo Lula e serve ainda como resposta aos últimos ataques de uma oposição sem rumo, desesperada, agônica:

Valor: Obama disse que o cara é o Lula...
Conceição: É. O Lula, um gênio político, mistura de Vargas e JK, uma liderança do povo brasileiro que tem uma sorte danada, ademais de ser muito competente. Tem que ter competência e sorte. As coisas têm que estar a favor.
Valor: Como é sua avaliação do governo Lula?
Conceição: Muito boa. Esta é a minha avaliação e de 70% da população. Na verdade, só a classe média dita ilustrada e a grande imprensa são contra. Contra também não sei o quê. Caiu a inflação. Portanto, mantiveram a política econômica dura que diziam que não iam manter, mas mantiveram. Contra meu ponto de vista. Perdi a parada, mas fico contente que tenha perdido, porque naquela altura ia ser complicado. Como estava tudo fora do lugar, era muito ousado fazer uma política alternativa no início do primeiro mandato. Do ponto de vista da política macro, eles começaram a fazer coisas no segundo mandato. Mas não creio que vão terminar. Fizeram o correto na infraestrutura, contemplando obras nas regiões Norte e Nordeste, como a ferrovia Transnordestina, a Norte-Sul, a transposição do rio São Francisco e portos. O PAC é uma seleção de projetos muito pesada e muito boa, de que não convém desviar. Também acertaram na política social, com o Bolsa Família. O governo Lula está tocando três coisas importantes: crescimento, distribuição de renda e incorporação social. E ainda por cima fez uma política externa independente. Por que acha que ganhamos a Olimpíada? [a escolha do Rio de Janeiro para sede dos jogos, em 2016]. Porque passamos a ter prestígio de fato lá fora.

É isso. Sem mais nada a acrescentar.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Palavras e mais palavras


Caetano Veloso vive de música e de palavras. Quando está meio esquecido, lá vem ele com alguma polêmica. Gosta de usar os jornalões para isso - a Folha é sua preferida, mas vale também o Globo, o Estadão, o que estiver mais à mão.
A última dele, todos sabem, foi chamar o presidente Lula de analfabeto, cafona e grosseiro. Claro que a declaração teve todo tipo de reação. Muitos se indignaram com tamanha falta de educação, tamanha exibição de preconceito. Outros, que odeiam o presidente, bateram palmas e elegeram Caetano o ídolo do momento.
Como a internet é implacável, foi fácil recolher algumas jóias do pensamento velosiano. Por elas se percebe claramente que o baiano é um boquirroto incontrolável e seu cérebro sempre foi um tanto, digamos, confuso. Sei lá, pode ser coisa de artista.
Vamos então à pequena, mas esclarecedora coletânea:

"Não sou modesto, sou leonino, mas sempre que pude melhorei."

"Sou um subintelectual de miolo mole."

"Não sou branco. Nem sou homem."

"Agora, é votar no Lula."

"Eu votaria no Lula, no Ciro, votaria no Serra."

"Não acredito em Deus nem em vida após a morte."

"Eu tinha medo de eles quererem fazer de eleição revolução. Sou muito ignorante em política, mas tinha medo. Eu era igual à Regina Duarte. Mas votei no Lula. E vi que não. O momento era Lula, o Brasil tinha de ser isso."

“Fizeram uma espécie de festival Woody Allen no Telecine Cult. Vi por acaso: passavam os filmes nas horas em que vou me deitar. Gostei de todos: dos que revi e dos que nunca tinha visto. Mas sei que ter saído de casa para ir ao cinema era um pouco demais para filmes tão estreitos. A TV é o perfeito veículo para Allen.O primeiro filme dele que vi foi Boris Gruschenko e achei que parecia um programa de TV meio malfeito. Depois, ele melhorou a estrutura dos roteiros e o uso da câmera. Passou a fazer filmes melhores. Mas sempre muito anti-sixties,um tanto reacionário. Muito hétero, muito reverente com os amantes de ópera que vivem no Upper East Side, muito chegado a uma decoração creme por trás de roupa bege. Careta até não poder.”

"Gosto mais de pretos que de mulheres."

"Meu negócio agora é sexo e amizade. Acho esse negócio de amor uma coisa muito chata."

"Lula é a Madonna. Ele se coloca bem para manter o sucesso de ter chegado à Presidência. A sensação que a gente tem até hoje é que ainda estamos na festa da posse do Lula."

"Sou modesto no que diz respeito à criação e não o sou pessoalmente. Me acho melhor do que Chico, Milton e Gil juntos."

"Nunca entendi desse negócio de dinheiro. Nem sei quanto eu ganho."

"Estou muito feliz com a atuação do Gil, porque ele se sente tão bem. Ele está feliz, estou feliz também. Uma coisa é certa: ele trouxe uma visibilidade e um peso para o Minc que ele nunca teve antes."

"O nome da solução do problema Brasil é São Paulo feliz."

"Vivemos com medo e isso nos leva a apoiar os líderes mais inaceitáveis."

"Tenho canções legais. Não são grandes canções, mas se vinculam com a história brasileira. Tiveram graça no momento e no modo em que apareceram. Talvez algumas sejam até bonitas em si."

"Eu dizia sobre os arranha-céus de Nova York que, olhando para eles, tinha a impressão de que já haviam sido destruídos há muito tempo."

"Osama Bin Laden é um homem bonito e se parece com algumas pessoas da minha família."

"Sou contra a reserva de mercado. Tem mais é que abrir as portas para a Madonna abrir as pernas".

"Eu sou um preguiçoso que trabalha muito."

"Desde pequeno eu achava que seria célebre."

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

As bicadas dos falcões


Vários desses analistas políticos que enriquecem com seu panfletarismo dissimulado as páginas dos jornalões estão, neste momento, implorando para que a oposição deixe de ser complacente com o governo Lula e faça o seu papel, que é, para tais incendiários, defenestrar o ex-metalúrgico.
Os pedidos são explícitos. Na visão dessa turma, tucanos, pefelistas e todos os outros parlamentares que gravitam ao redor dessas agremiações, mostram-se intimidados com a extraordinária popularidade de Lula e, por isso, são incapazes de partir para o embate direto.
Eles acham que, o sucesso do governo inibe os ataques - e, dessa forma, é bastante provável que o "poste" escolhido pelo presidente para sucedê-lo possa derrotar o escolhido pelos céus, ou seja, o governador paulista José Serra, para continuar a grande onda de privataria iniciada pelo inesquecível FHC. Bons tempos aqueles!
As bicadas desses falcões são doídas. Eles acusam Lula de estar se apropriando das mentes e corações de milhões de brasileiros em troca de um superficial bem-estar que se traduz em mais salário, mais emprego, mais consumo, mais educação, essas coisas supérfluas que só servem para atrapalhar o dia a dia de nossos cidadãos.
E vão além na indignação. Para tais arautos da moralidade pública é inconcebível que tanto Lula quanto o seu partido tenham, como dizem, "aparelhado" o Estado com sindicalistas, essa gentinha que veio lá de baixo para tomar o lugar de dedicados servidores que haviam sido escolhido com zelo exemplar pelos dirigentes passados.
É o país caminhando célere para se tornar a mais nefanda república obrera da história do mundo. Um horror.
Não param aí as denúncias. O maquiavélico barbudo, mostrando-se uma pessoa sem nenhum escrúpulo, é ainda capaz de se aliar com o que de pior existe na política para levar seus planos avante.
Como se vê, alertam esse valentes escribas, o perigo é real e iminente. Por isso a conclamação para que os oposicionistas assumam desde já uma posição mais incisiva, frontalmente contrária a tudo que ocorre no país neste momento.
O problema todo é que a parte mais interessada, o povo, está gostando do que vê e vive. E aí fica difícil, quase impossível, fazer o que essa meia dúzia de iluminados planeja com tanto zelo em seus escritórios refrigerados.
Mas não custa continuar tentando.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Insegurança pública

A notícia não ganhou manchetes estrondosas nos jornais paulistas, mas o registro foi feito: a violência no Estado cresce sem parar.
A Folha escreveu o seguinte sobre o assunto:
Dados divulgados na noite de ontem (segunda-feira) pela Secretaria da Segurança Pública da gestão José Serra (PSDB) apontam o aumento em praticamente todos os tipos de crime.
A comparação do 3º trimestre de 2008 com o mesmo período deste ano revela que subiram os crimes de sequestro, homicídio doloso (intencional), estupro, roubo, furto, roubo e furto de veículos e também o roubo de cargas e de bancos.
Em todo o Estado, foram assassinadas 1.119 pessoas nos meses de julho a setembro deste ano -um aumento de 3% em relação a 2008. Na cidade de São Paulo, porém, houve queda de 8,2% -de 317 para 291, mais de três assassinatos por dia.
A variação mais alta foi contabilizada nos crimes de sequestro: 136% -11 casos em 2008 e 26 agora. O total de pessoas mortas em latrocínios (roubo seguido de morte) subiu 14% -74 para 82 vítimas.
Principal bandeira do atual secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, que assumiu a pasta em março com a promessa de combater os crimes contra o patrimônio, roubos e furtos tiveram alta de 18% e 6%, respectivamente.
Em maio, quando os números referentes ao 1º trimestre do ano já apontavam para o aumento da criminalidade no Estado, o governo atribuiu o problema à crise econômica.
Com 64.399 roubos registrados, o 3º trimestre deste ano entrou para a história como o período em que mais crimes desse tipo ocorreram em todo o Estado. A marca negativa anterior (63.729) havia sido registrada no 2º trimestre deste ano. Na comparação com o 3º trimestre do ano passado, os roubos aumentaram 18% agora.
O total de roubos (64.399) não inclui os casos de roubo de veículos, a bancos e de cargas.
O furto, delito que historicamente sempre foi o mais registrado nas estatísticas da criminalidade, subiu 6%.
No caso de crimes de estupro, houve aumento de 52% (de 863 para 1.311), mas a variação, segundo nota oficial da Segurança Pública, ocorreu por causa da mudança na lei, que passou a considerar estupro também casos de 'atos libidinosos' e 'atentados violentos ao pudor'.
A nota se encerra dizendo que, "logo após a divulgação dos dados da violência na noite de ontem, na página da pasta, o porta-voz da Secretaria da Segurança Pública, Enio Lucciola Lopes Gonçalves, disse à Folha que ninguém do órgão iria se manifestar sobre os dados 'por causa do horário'.
Segundo Gonçalves, parte das explicações foi dada em uma 'nota explicativa' no site www.ssp.sp.gov.br/estatisticas. Mas, na própria nota, há divergências. Pelo texto, foram 62.308 roubos no Estado. No quadro abaixo da informação, porém, o total que aparece é de 64.399."
Então é isso: o Estado mais rico da federação, governado há mais de uma década por representantes de um mesmo partido, não consegue diminuir os índices de violência, mostra-se incapaz de apresentar uma política de segurança pública que sequer impeça o aumento da criminalidade.
É uma tragédia, ainda mais quando se sabe que muitas ocorrências não são registradas pelas vítimas por absoluta descrença no trabalho policial.
O tema segurança pública, aliás, poderia servir de mote para a campanha presidencial dos defensores do Estado mínimo, esses que fazem oposição renhida ao governo Lula. O que têm a propor o governador José Serra e seus aliados ao Brasil? O modelo paulista de gestão, cujos resultados são esses aí publicados pela insuspeita Folha?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Seleção natural

Foi um sucesso o convescote da juventude demista que terminou ontem, dia de Finados, em Blumenau.
A notícia sobre o encontro foi extraída do site do partido:
"No sábado, segundo dia do Encontro Nacional da Juventude, foi lançado pelo presidente Rodrigo Maia o Torne-se Deputado: um projeto para estimular e apoiar o jovem com até 30 anos que queira se lançar na política. O Democratas quer animar candidaturas, com orientações, assessoria técnica e até patrocínio legal.
O processo de seleção se dará através do site do partido. Para se inscrever basta responder através de texto ou hotsite à pergunta: Por que quero ser deputado. Os nomes dos selecionados serão anunciados até 15 de março de 2010."
O deputado Rodrigo Maia explicou a iniciativa pioneira:
"Procura-se representantes dos jovens, a quem se oferece ajuda para conquistar mandatos. E nenhum grupo social tem hoje mais densidade, nem extensa agenda política e econômica do que os jovens, a quem o partido quer, não apenas atrair, mas integrar aos quadros, transferindo posições de liderança que lhes cabem."
Desse jeito, vai longe esse DEM.

domingo, 1 de novembro de 2009

Lições de política e humanismo

Duas obras-primas do cinema da década de 50, os filmes dirigidos por Julien Duvivier com base nos contos de Giovannino Guareschi, "Don Camillo" e "O Retorno de Don Camillo", foram lançadas recentemente no mercado brasileiro em DVD.
Além das magníficas interpretações de Fernandel e Gino Cervi, como Don Camillo e sua contraparte, o prefeito comunista Peppone, os filmes sintetizam de modo admirável a obra de Guareschi, sincera, divertida, transbordante de humanismo - e de certa maneira, totalmente política.
O mundo de Don Camillo, cheio de nuances, de meios tons, onde nenhum personagem é inteiramente bom ou mau, inclusive o próprio padre que procura ocultar os seus pecadilhos do Jesus crucificado de sua igreja (para quem não sabe, Don Camillo conversa frequentemente com a estátua - ou seria a sua consciência?), na verdade não se circunscreve à região da aldeia de Reggio, na Emilia Romagna. Sintetiza todas as pequenas e grandes aldeias da Terra, onde os homens, basicamente, procuram viver da melhor maneira que podem.
No constante embate que travam, Don Camillo e Peppone alternam derrotas e vitórias. Defendem de todas as maneiras seus ideais - o padre, os valores religiosos, a ordem conservadora, a estabilidade; o prefeito comunista, a transformação social, a "revolução", como diz, o trabalho coletivo, a disciplina partidária. Nem por isso se odeiam, pois veem na amizade que têm há longo tempo algo mais poderoso que as desavenças políticas. E, acima de tudo, pensam, cada qual a seu modo, no bem-estar da comunidade.
Don Camillo e Peppone, aparentemente contrários em tudo, brigam pelas mesmas coisas, são como irmãos siameses que dependem um do outro para sobreviver.
Claro que seria pedir demais a certas figuras públicas do Brasil a compreensão da luta política que Don Camillo e Peppone têm.
Primeiro, porque ambos são frutos da imaginação exuberante de Giovannini Guareschi, um católico que compreendeu que nem tudo do Partido Comunista Italiano do pós-guerra estava errado e nem tudo da Democracia Cristã estava certo. Um país estilhaçado pela derrota na guerra não poderia se dar ao luxo de não absorver a riqueza de todas as experiências sociais dos seus homens da direita e da esquerda. Tampouco fazer pouco caso de sua longa e profícua tradição humanista, neste caso representada pela própria obra de Guareschi.
Outro fator que limita esses tais homens públicos nativos que desdenham dos principais fundamentos da política é justamente o fato de que, ao contrário de Don Camillo e Peppone, eles absolutamente não se sentem ligados à sua terra ou ao seu povo. E assim, agem em interesse próprio, descompromissados de tudo o que não renda algum benefício - a si mesmos e aos de sua classe.

E.T.: FHC, aquele ex-presidente que não aceita a aposentadoria e tampouco o êxito de seu sucessor, escreveu um artigo que foi publicado neste domingo nos principais jornais da direita brasileira. Nele, fica claro que o autor, um esnobe e pretensioso "intelectual", nunca foi leitor de Guareschi. E, se foi, não deu a ele a menor importância. Afinal, seu mundo é outro.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

No pique e na vanguarda

O DEM nada mais é que o velho PFL, partido que reunia os políticos mais reacionários do país, muitos deles com notáveis contribuições à ditadura militar. A extrema-direita, para não usar nenhum eufemismo.
O PFL mudou de nome porque já não ganhava mais nem eleição para síndico de prédio. Não deu certo, a agremiação continua com a sua irresistível vocação de perdedora e, como não consegue se livrar das raízes, de golpista. Tem o costume de, a toda hora, apelar para o tapetão, pois, sem votos, o que lhe resta?
O DEM não apresenta propostas de governo, a não ser a de que os ricos não devem pagar impostos. O ideal de liberdade que prega em seu estatuto resume-se na divisão do mundo em uma Casa Grande e muitas Senzalas.
Mas apesar de todos esses elementos sombrios, o DEM tem uma extraordinária vocação para a comédia. Ou para a farsa.
Exemplo disso é o release que distribuiu para a imprensa, sob o nome de um boletim intitulado "Democratas Informa" (democratas é o nome que os demistas dão a si mesmo, o que já é uma boa piada). Nele, avisa sobre a realização do "2º Encontro Nacional da Juventude Democratas", em Blumenau, a partir de hoje e até a segunda-feira, dia 2, Finados - que data seria melhor para encerrar tal evento?
Como peça de humor, o boletim é insuperável. Os erros de português são desculpáveis, pois afinal foram cometidos por jovens - idealistas e afoitos, que pecam por excesso de vontade de ver o Brasil melhor e se atrapalham nessa nobre missão.
Com a palavra, então, os jovens "democratas":

É um evento organizado para ser simplesmente o melhor de todos já feitos pelos braços partidários de jovens. No lugar de assembléias, cerimoniais e votações exaustivas, o foco será debater em exaustão a política jovem no Brasil. Internet, a imagem dos políticos, a militância de oposição são alguns dos temas escolhidos a dedo. Tudo isso estará acontecendo dos dias 30 de outubro a 02 de novembro em Blumenau, Santa Catarina.
Entre os palestrantes estão nomes de peso. Marcelo Tas, o comandante do CQC, estará lá para revelar os macetes da complicada relação internet x jovem x twitter x política. Mário Rosa, o autor de A Era do Escândalo, falará sobre os cuidados com a imagem pública. Antonio Lavareda, o cientista político sempre convocado pelos marqueteiros, fará um panorama do cenário eleitoral.
E terá muito mais: o sociólogo Amaury Souza, o blogueiro Marcelo Vitorino (Pergunte ao Urso), o líder estudantil venezuelano Yon Goicotchea, que tornou-se símbolo da resistência contra a repressão chavista e as grandes lideranças do Democratas (deputados Rodrigo Maia, Ronaldo Caiado, ACM Neto, Paulo Bornhausen, José Carlos Aleluia; senadores Agripino Maia, Raimundo Colombo, Demóstenes Torres).
E, é claro, vai ter também muita festa. Primeiro, por que para o jovem a política significa fazer novos amigos. Para muitos que sairão de canto distantes do país e que já mantem contato pelas redes na internet, o evento é a oportunidade conhecer cara-a-cara os parceiros de militância política.
Na organização geral, está a moçada de Santa Catarina , que montou um verdadeiro quartel-general para que absolutamente todo detalhe corra bem. Afinal, a previsão é de uma festa com mais de 800 jovens.
"Vamos mostrar ao Brasil que somos uma oposição responsável. Mas também questionadora, no pique e na vanguarda - como todo jovem deve ser", resume o presidente nacional da Juventude Democratas, deputado Efraim Filho.


PS.: O deputado Efraim Filho tem 30 anos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Nervos de aço

O governador José Serra diz ter "nervos de aço em política", referindo-se às pressões de seu partido e de aliados para se declarar candidato à sucessão de Lula.
Ele quer que o candidato tucano seja definido somente em março do ano que vem, quando vence o prazo fixado pela lei eleitoral para se afastar do governo paulista, caso queira disputar o Planalto. Seu concorrente à indicação, o governador de Minas, Aécio Neves, espera uma decisão da legenda até janeiro.
Todo mundo sabe que Serra pretende ser o candidato tucano. Pode, quando muito, ter algumas dúvidas sobre o potencial de crescimento dos principais adversários, Dilma Rousseff e Ciro Gomes. Nesse meio tempo, analisa suas chances de liquidar a fatura. Só não disputa a eleição presidencial se perceber que corre mais riscos que o planejado.
Ao afirmar ter nervos de aço, Serra fez uma revelação mais importante que todas as contidas no seu caudaloso perfil publicado pela revista "Piauí": nele, o mais interessante que se fica sabendo é que Serra não possui diploma universitário e que é misofóbico, ou seja, tem necessidade de lavar as mãos compulsivamente - no seu caso, com álcool.
Dessa vez, porém, Serra mostrou aos impacientes repórteres a sua alma. Um grande músico e poeta popular, o gaúcho Lupicínio Rodrigues, dissecou, numa de suas obras-primas, quem são essas pessoas como Serra:

"Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Ao lado de um tipo qualquer
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço
Que nem um pedaço do seu pode ser
Há pessoas de nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, é despeito, amizade ou horror
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor"

A canção chama-se, a propósito, "Nervos de Aço". Não se sabe quem causava a Lupicínio esse desejo de "morte ou de dor".
No caso de Serra, é mais fácil descobrir.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O jeito tucano de governar

Os tucanos não cansam de dizer que, entre as suas inumeráveis virtudes, destaca-se a de que são os melhores gestores do mundo. O Estado de São Paulo, que está desde sabe-se-lá-quando sob a administração do PSDB, tem servido de vitrine das suas realizações. Não é por acaso que dele têm saído os candidatos da legenda à Presidência da República.
Para derrubar esse mito da eficiência tucana, a liderança do PT na Assembleia Legislativa do Estado preparou um estudo sobre as realizações do tucanato em terras paulistas. Por ele se percebe claramente as linhas mestras do modelo administrativo tucano: fúria arrecadatória, complacência com os poderosos, desprezo às questões sociais, entrega do Estado ao capital privado.
O estudo mostra ainda que é possível enganar quase todos durante muito tempo se você conta com a cumplicidade da mídia, que em vez de cumprir seu papel de informar, transforma-se numa monstruosa máquina de propaganda.
Abaixo, um resumo das conclusões do estudo:

Fúria Arrecadatória
Durante o período FHC, os tucanos mais do que dobraram o peso dos impostos no país. Em São Paulo, a carga tributária atingiu 9,77% do PIB paulista em 2008.
O peso dos impostos
Em seis anos o peso dos impostos que cada contribuinte pagou quase dobrou.
Arrocho do funcionalismo
O percentual para pagamento de pessoal (ativos e aposentados) tem sido bem menor do que os limites previstos na Lei de Responsabilidade Fiscal.
Aumento das terceirizações
O gasto com terceirizações de serviços, principalmente na Saúde e na Cultura, aumentou quase 50% entre 2000 e 2008.
Venda do patrimônio público
As principais privatizações foram: CPFL (1997), Eletropaulo (1997), Banespa (1999), Nossa Caixa (2009), Ceagesp (1997), Fepasa (1997), Comgás (1999), CTEEP (2006), parte da Cesp (1999) e parte da Sabesp (1997, 2002 e 2004). Foram, também, concedidas as principais rodovias estaduais (Bandeirantes, Anhanguera, Imigrantes, Anchieta, Castelo Branco, Ayrton Senna, D. Pedro etc).
Multiplicação dos Pedágios
Junto com as concessões das rodovias paulistas, que já estavam entre as melhores do Brasil, vieram novas praças de pedágio. Um aumento de 307,5% de 1997 a 2009.
Lucro das concessionárias dispara
A tarifa dos pedágios subiu 174% de 1998 a 2009. A inflação no mesmo período foi de 99%. Os pedágios paulistas são os mais caros do país e dos mais caros do mundo. O lucro acumulado das concessionárias, a partir de 2003, chegou a R$ 3,1 bilhões.
Educação, Saúde e Segurança
Os gastos com Educação, Saúde e Segurança perdem espaço no orçamento nos últimos anos.
Vida fácil para devedores
Os governos tucanos não cobram os grandes devedores do Estado. Os valores devidos cresceram quase 150% entre 1997 e 2008.
Calote nos precatórios
O que o governo não paga às pessoas físicas e jurídicas serve para fazer caixa e obter superávits primários artificiais.
Dívida Pública
Depois de arrochar os salários dos servidores, cortar investimentos e vender patrimônio público, o resíduo da dívida já está em R$ 56,3 bilhões e continua crescendo. Já a dívida pública total passou de R$ 130 bilhões em 1997 (valores atualizados) para R$ 168 bilhões em 2008.
A farra da propaganda
O gasto com propaganda cresce com a proximidade das eleições.
Investimentos com recursos autorizados pelo governo Lula
O governo Serra vem anunciando a ampliação dos investimentos no Estado, porém, esconde que grande parte destas ações são financiadas por empréstimos autorizados pelo governo Lula. No governo Lula, o Estado foi autorizado a realizar novas operações de crédito no valor de R$ 13,7 bilhões, suspendendo o bloqueio criado por FHC no Acordo da Dívida, em 1997, e permitindo a retomada dos investimentos. Além disso, o Governo Lula vem financiando diretamente ou através do BNDES obras como o Rodoanel (Trecho Sul) e a Linha 2 do Metrô.
Metas do PPA
O governo Serra não cumpriu mais de 40% das metas fixadas para 2008.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O mercado interno

Lá naqueles idos em que o Brasil ainda era o país do futuro e os governantes faziam de tudo para ampliar a distância entre a Casa Grande e a Senzala, um dos mantras preferidos do pessoal da esquerda dizia que o mercado interno precisava ser fortalecido.
A máxima delfiniana de fazer crescer o bolo para só então depois dividí-lo soava como algo detestável, mas mesmo assim servia como desculpa para a aplicação daquele modelo econômico excludente e elitista, que condenou o país a tantos anos de atraso.
O tempo provou que estavam certos aqueles que iam na contramão desse tipo de pensamento econômico que louva o capital e escraviza o trabalho, que elege meia dúzia de predadores como grandes êmulos do desenvolvimento, condenando a grande maioria da população a viver com as sobras do banquete.
Alguns dos mais contumazes - para não dizer ferozes - críticos do governo Lula são exatamente pessoas que estiveram, em certo momento de suas vidas, no mesmo partido do presidente, ou pelo menos, o apoiando ou torcendo para que seus ideais se realizassem algum dia.
Pois bem, hoje, quando a imprensa quer criar confusão sobre alguma declaração ou ato do presidente, e para dar a essa repercussão um "peso" de imparcialidade, costuma recorrer exatamente aos tais "amigos" do passado. E aguente a pancada! O que eles dizem, no mínimo, é que Lula é um traidor da causa socialista, um sujeito que se vendeu ao grande capital, populista da pior espécie, em suma, uma desgraça para o Brasil.
E voltamos ao começo da conversa. É que, tenham ou não suas razões essas pessoas, algumas delas talvez até bem intencionadas em suas duras análises, elas se esquecem do que, para mim, é o principal: o fortalecimento do mercado interno que o governo Lula proporcionou, invertendo tudo o que seus antecessores fizeram - e assim, aos poucos, apagando as letras pétreas que determinavam essa ignominiosa desigualdade econômica - e social - que marca a história do país.
Claro que a oposição tucana cada vez mais vai reivindicar papel de protagonista nessa virada, essa história de que o Bolsa Família nasceu de programas sociais criados por FHC - e tome um blablablá interminável, puro jogo de cena eleitoral.
A grande virada do Brasil ocorreu quando o governo Lula barateou o crédito, tornou o dinheiro acessível a milhões de pessoas, quando deu reajustes de verdade ao salário mínimo, aos servidores públicos, aos aposentados, quando resgatou da miséria, por meio do Bolsa Família, aquela parcela imensa da população que vivia à margem tanto da dignidade quanto da cidadania.
Foi assim que a nação virou o jogo, passou pela mais grave crise econômica desde o crash da bolsa americana tantas décadas atrás, e sai dela ainda mais forte.
Foi com a força do seu mercado interno - com a força do seu povo.

sábado, 24 de outubro de 2009

Cada coisa no seu lugar

Antes de contar uma historinha que estava meio esquecida na memória, vale a pena reproduzir inteiro o trecho da entrevista do presidente Lula à Folha, que causou comoção entre alguns jornalistas e "observadores" da imprensa pelo país afora:

FOLHA - O sr. diz que a imprensa internacional elogia o Brasil e a nacional puxa para baixo. Nos EUA, Obama apanha da imprensa, e é elogiado na imprensa internacional. Isso não acontece porque a imprensa nacional conhece o país melhor?
LULA - [Risos] Quisera Deus que fosse verdade. A nacional conhece melhor o país, até porque tem obrigação. Mas, às vezes, vejo comportamento de um setor da imprensa muito ideologizado. Sou amante da democracia e da liberdade de imprensa. A maior alegria que tenho é que leitores, ouvintes e telespectadores são os únicos censuradores que admito nos meios de comunicação. Cada um paga pelo que faz.
FOLHA - A imprensa fiscaliza o poder. O sr. não está incomodado com a imprensa cumprindo o seu papel?
LULA - Não incomoda.
FOLHA - O sr. disse que tem azia quando lê jornais.
LULA - Como presidente, nunca fico incomodado. Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar. É informar.
FOLHA - A imprensa não tem de ser fiscal do poder?
LULA - Para ser fiscal, tem o Tribunal de Contas da União, a Corregedoria-Geral da República, tem um monte de coisas. A imprensa tem de ser o grande órgão informador da opinião pública. Essa informação pode ser de elogios, de denúncias sobre o governo, de outros assuntos. A única coisa que peço a Deus é que a imprensa informe da maneira mais isenta possível, e as posições políticas sejam colocadas nos editoriais.

Como se vê, o presidente apenas falou o que qualquer estudante de jornalismo - se é que eles ainda existem - aprende nos primeiros dias do curso: nas páginas de notícias devem ser publicadas notícias e não editoriais disfarçados de notícias. Elementar.
E agora, a historinha:
Lá nos idos dos anos 80, o Estadão resolveu mudar de cara e contratou para dirigir a redação um figurão daqueles cheios de verdades incontestáveis.
Tal personagem se cercou de uma dezena de profissionais recrutados na fina flor da imprensa nativa e deu início à sua revolução: dali por diante, decretou solenemente, a opinião ficaria restrita às páginas 2 e 3, as de artigos e editoriais.
Ficamos exultantes de felicidade por ele ter reiventado a roda.
Quando a campanha eleitoral para a presidência começou e o embate entre Collor e Lula estava mais renhido do que se imaginava, numa reunião de editores, o tal chefão jogou uma pisicina de água fria em todos que imaginávamos que dali por diante faríamos jornalismo de verdade:
- A cobertura está sendo muito parcial para o Lula. Vamos ter de mudar isso - ordenou, daquele modo imperial que o distinguia dos simples mortais.
E assim foi feito - o resto é história.
O tempo passou, o big shot não emplacou no Estadão por, dizem, ter levado a pior na colisão de egos com integrantes da família Mesquita, e todos se salvaram.
O Estadão continua a fazer jornalismo de seu próprio jeito reacionário e rancoroso e o tal figurão está hoje muito bem instalado num desses espaços da internet que as publicações da extrema-direita financiam.
Nele, se dedica a escrever, no seu manjado e pomposo estilo sabe-tudo, sobre as desventuras de um país chamado Brasil que é governado por um analfabeto e está prestes a eleger uma desqualificada - e mentirosa - para a sua a sucessão.
Assim é a nossa imprensa livre - que Deus nos livre dela!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A grande mentirosa

Ouço agora no rádio que, nesta manhã de quinta-feira, 113 quilômetros de ruas paulistanas estão congestionadas.
Choveu de madrugada. De manhã parou. Não é, portanto, a chuva que causou os problemas. Todos sabem que ela atrapalha, mas o caso de São Paulo é muito mais profundo.
A metrópole, vítima de anos e anos de desgovernos que impiedosamente a castigaram, está sofrendo de falência múltipla de órgãos. É impossível que os paliativos desses últimos tempos a salvem da agonia final.
Transporte urbano, saúde, educação, habitação - esses são os macroproblemas, que se desdobram em centenas de outros menores.
A cidade apenas agudiza os males crônicos do país que se acumularam por décadas. É vítima de um modelo cruel, que não deu e nunca dará certo.
As vítimas somos todos nós, impotentes espectadores da catástrofe.
Alguns têm consciência da tragédia - outros, mais felizes, a ignoram e, entorpecidos pela propaganda, sentem-se vivendo no sétimo céu.
São Paulo, a grande mentirosa.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A maldade, a barbárie


O sentimento de que no mundo existem os civilizados e os bárbaros, uma divisão entre os que moram no hemisfério norte e os que habitam o hemisfério sul (com algumas exceções nesse caso), é forte em muitos brasileiros, que se dedicam a copiar tudo o que lhes parece capaz de disfarçar a sua origem.
São esses os que disseminam a famosa síndrome do vira-latas que tanto tem atrapalhado o desenvolvimento do país.
Nem tudo, porém, são flores no jardim da civilização.
A notícia abaixo foi transcrita na íntegra do site da Deutsche Welle, a agência de notícias alemã.
Vale a pena ser lida - ela mostra que a barbárie está em todo o canto, não distingue língua, cor de pele, geografia.

Alemanha prepara deportação de 14 mil refugiados para o Kosovo

O governo alemão prepara a deportação de 14 mil refugiados para o Kosovo. Um acordo nesse sentido deverá ser fechado com as autoridades locais ainda este ano, declarou o porta-voz do Ministério alemão do Interior, Stefan Paris. A organização de defesa dos direitos humanos Pro Asyl e o partido de oposição A Esquerda criticaram a decisão.
Segundo Paris, os refugiados não serão deportados todos de uma vez e o acordo obedece a leis internacionais. Os aspectos humanitários estão sendo observados, assegurou Paris. Conforme o governo, a maior parte das pessoas afetadas com a decisão – 9,8 mil – é da etnia rom (vulgarmente chamados de ciganos).
Por ano, serão deportadas no máximo 2.500 pessoas, segundo o ministério, e o governo alemão não enviará de volta apenas ciganos, mas levará em consideração a distribuição das etnias entre a população do Kosovo.
Miséria e preconceito
A Esquerda criticou a decisão. "O Kosovo é um país onde as minorias étnicas são amplamente discriminadas e perseguidas", afirmou a deputada Ulla Jelpke. A deportação seria contra o direito fundamental à dignidade humana.
Para Bernd Mesovic, da Pro Asyl, uma vida na miséria aguarda os rom no Kosovo. Também ele alertou para a discriminação de que essas pessoas seriam vítimas no país. Além disso, argumentou, o governo local não teria condições de integrar os refugiados na sociedade devido à alta taxa de desemprego.
Integração difícil
Deportações para o Kosovo ocorrem desde 2001, mas até agora a maioria dos deportados era kosovares de origem albanesa, e os números eram muito menores. Em toda a Europa, cerca de 8 mil albano-kosovares foram enviados de volta ao Kosovo. Muitos retornaram por vontade própria.
Para estes, a integração costuma ser mais fácil, pois a maioria tem familiares no Kosovo. No caso dos rom, a situação é diferente. A deportação criaria um problema para as autoridades kosovares, já que o governo não tem moradias nem empregos para oferecer.
Além disso, muitos deles vêm de classes sociais empobrecidas e com pouco acesso à educação e não podem contar com o apoio de parentes. Artan Duraku, assessor do Ministério kosovar do Interior, disse que um ponto complicado é esclarecer a nacionalidade dos deportados.
Isso nem sempre é fácil, disse Duraku, já que muitos rom da antiga Iugoslávia perderam seus documentos durante a guerra ou mesmo nunca os tiveram. "Em geral, o principal ponto num processo de reintegração é confirmar a nacionalidade das pessoas que devem ser reintegradas", explicou.
Centros de desabrigados
Segundo ele, as pessoas que retornam por vontade própria têm vantagens que os deportados não têm. "O melhor é voltar por vontade própria, pois neste caso as pessoas ganham das autoridades um comprovante que permite obter compensações e ajuda financeira. Os que são deportados geralmente não contam com esse apoio."
As pessoas que retornam ao Kosovo ficam sob responsabilidade do Ministério do Trabalho e da Ação Social. Caso os funcionários públicos não consigam realojá-los, acabam indo para centros de desabrigados.
No Kosovo, há três grandes centros destinados aos rom ao norte da cidade de Mitrovica. Os três estão no limite de sua capacidade. Dois deles ficam localizados nas proximidades de uma antiga fundidora de chumbo e é possível que estejam sobre solo contaminado.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Neo-bolivariano


Candidato a candidato ao governo do Estado de São Paulo, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf - o mais novo socialista do pedaço -, ao que tudo indica, já está com a campanha em andamento.
O release que a entidade que preside enviou aos jornais na segunda-feira dá mostras da sua personalidade - ou da imagem que pretende passar ao eleitorado.
Os grifos são meus:

"Durante reunião com empresários realizada na manhã desta segunda-feira (19/10) na sede da Fiesp, em São Paulo, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, homenageou o presidente da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/Ciesp), Paulo Skaf, com a Ordem Nacional ao Mérito. Segundo o decreto 4013, de outubro de 2009, do Ministério das Relações Exteriores da Colômbia, a comenda tem por objetivo honrar e enaltecer as instituições colombianas e estrangeiras distinguidas por seus serviços ao país.
Álvaro Uribe, ao entregar a comenda a Paulo Skaf afirmou:
“A integração entre os povos não se faz por geração espontânea. Necessita de pessoas que a construa. Você tem sido um grande construtor da integração com o Brasil. Agradeço-lhe de coração. Em nome dos colombianos, muito me honra poder condecorar com a Ordem Nacional ao Mérito alguém que, por construir a integração Colômbia Brasil, tanto tem servido aos nossos dois países. Muito obrigado por tudo o que tem feito”.
Skaf agradeceu ao presidente Uribe e compartilhou a homenagem com todos os setores produtivos brasileiros. “Para nós tem sido gratificante trabalhar pelo estreitamento das relações econômicas com a Colômbia. Temos um fluxo de comércio a ser ampliado, com um grande potencial em investimentos brasileiros no país vizinho”.
Skaf salientou que existem grandes oportunidades de negócios com os colombianos graças à forma com que Uribe comanda suas relações internacionais, efetivando acordos comerciais com diversos países.
Destacou, ainda, que o presidente colombiano tem exercido autoridade, buscando a disciplina, a ordem e o crescimento com inflação controlada. “Isso reforça a vontade de trabalhar mais pelo relacionamento, pelo aumento dos negócios, pelas relações culturais entre nossos países. Agradeço muito essa honrosa condecoração. Guardarei pelo resto da minha vida este momento, esta homenagem que recebo deste país amigo, deste povo irmão”.
No documento de condecoração, o presidente colombiano justifica que
“Paulo Skaf é incansável promotor do desenvolvimento empresarial na América Latina" e que, por seus trabalhos, foi possível fortalecer as relações comerciais, impulsionando o desenvolvimento por meio de projetos e investimentos entre empresas brasileiras e colombianas. Ressalta as ações de promoção cultural entre os dois paises realizadas entre a Fiesp e o Museu Nacional da Colômbia.
Diz ainda que é dever do governo colombiano reconhecer os méritos e exaltar as altas qualidades pessoais e profissionais de Paulo Skaf, que com seu trabalho tem contribuído para o desenvolvimento do povo latino americano”.

O nome da fera é Paulo Skaf - mas pode chamar de Simón Bolívar.

domingo, 18 de outubro de 2009

Crime sem punição


Desde setembro do ano passado, quando a crise econômica internacional começou, a indústria de transformação do Brasil perdeu 282 mil empregos com carteira assinada, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged, do Ministério do Trabalho. No mesmo período, o saldo entre demissões e admissões do comércio foi positivo em 219 mil trabalhadores.
Como se sabe, a indústria produz, na maioria dos casos, para o comércio vender. Simples. Então como explicar o descompasso existente entre os empregos exterminados pelo setor, que indicariam uma retração abissal nos pedidos do varejo, e o saldo positivo dos postos de trabalho do comércio?
O presidente Lula, num de seus últimos discursos de improviso matou a charada: os industriais brasileiros entraram em pânico com as notícias de que estava vindo uma crise econômica, talvez por terem a Folha, o Estadão, a Veja e O Globo como guia de vida - exatamente porque tais publicações dizem o que eles querem ouvir.
Foi uma carnificina. Se o governo federal não tivesse reagido imediatamente e espalhado pela economia brasileira os antídotos antirrecessão que fizeram o tsunami que se anunciava se transformar na marolinha prevista por Lula, nossos capitães de indústria estariam, neste momento, com a consciência pesada por terem desempregado tanta gente - isso se tivessem consciência.
Como a economia do país se recupera de maneira tão rápida que nenhum dos nossos mais ilustres analistas pensava ser capaz, é provável que em breve o crime cometido pelo patronato industrial caia no esquecimento - afinal, não dizem que este país tem memória curta?
O episódio, de qualquer maneira, serve para que as pessoas realmente interessadas em que o Brasil vá para a frente façam uma reflexão, pois não é possível que um setor tão importante quanto o industrial continue a ser gerido da maneira irresponsável que se viu nesses últimos meses.
Na verdade, a falta de planejamento, a insensibilidade social, a sede do lucro fácil, a obediência cega à filosofia que exige levar vantagem em qualquer circunstância, não são recentes.
Essas práticas vêm de longo tempo, parecem ser uma segunda pele desses nossos capitalistas que têm por hábito xingar o Estado na maré a favor e gritar por socorro quando a primeira onda os atinge.
São como parasitas, que sobrevivem apenas às custas dos troncos fortes.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A banda larga do Serra

A internet banda larga popular do Serra não é tão popular assim.
É só comparar com a Net. Está lá no site da empresa:
Plano de 500 Mbps, R$ 49,90 (R$ 0,099 por bps);
Plano de 3 Mega, R$ 84,90 (R$ 0,028 por bps);
Plano de 6 Mega, R$ 119,90 (R$ 0,019 por bps);
Plano de 12 Mega, R$ 219,90 (R$ 0,018 por bps).
A banda larga do Serra custará R$ 29,80, com conexão que vai de 200 Mbps (R$ 0,149 por bps) a 1 Mega (R$ 0,029 por bps).
Além de mais cara que a concorrência, a banda larga do Serra é fornecida, nada mais, nada menos, do que pela Telefônica - que não pagará ICMS -, empresa campeã em reclamações no Procon, e cujo serviço de internet esteve sob a intervenção da Anatel, porque simplesmente não funcionava.
Mas como no mundo tem bobo pra tudo...

No tempo da caderneta

As taxas de juros ao consumidor caíram em setembro para 7,01% ao mês, em média, o menor nível já registrado pela Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), que iniciou sua pesquisa em 1995.
A entidade verificou que nos últimos oito meses os juros cobrados no mercado caíram de forma consecutiva, mesmo sem o Banco Central ter mexido na taxa básica, a Selic, que está em 8,75% ao ano.
"Essas reduções podem ser atribuídas à melhora no cenário econômico e maior competição no sistema financeiro", avalia Miguel José Ribeiro de Oliveira, coordenador da pesquisa da Anefac.
O levantamento da associação aponta que a taxa para pessoa física caiu de uma média de 7,08% em agosto para 7,01% em setembro. Apesar disso, tomar empréstimos a essa taxa ainda significa ver a dívida mais que dobrar (125,47%) no fim de um ano.
Os juros do cartão de crédito, a 10,68% ao mês, continuam no topo da lista das taxas mais caras e não se alteraram desde fevereiro de 2009. Nas financeiras, que oferecem o segundo juro mais alto, a taxa média recuou de 10,62% ao mês para 10,48%. No cheque especial, o juro caiu de 7,38% para 7,34%, enquanto as taxas do empréstimo pessoal nos bancos passaram de 5,15% para 5,02%.
Essa seria uma boa notícia não fosse o fato de que os juros cobrados pelos bancos no Brasil ainda são, para dizer o mínimo, indecorosos.
A ganância dos banqueiros é algo para se pensar. E como uma coisa puxa a outra, acabei me lembrando justamente do oposto, de comerciantes que conheci que sabiam tratar seus fregueses de modo especial - e nem por isso deixaram de lucrar com eles.
Na Jundiaí do início dos anos 70 existiam várias pessoas assim. Me recordo particularmente de duas delas, o Cassiano, dono do Urso Branco, um bar ao qual íamos todas as noites depois do fechamento do Jornal de Jundiaí - eu, o saudoso Afrânio Bardari, secretário de redação, Celso de Paula, batalhador incansável das artes e da cultura da cidade, repórter dos bons, e vários amigos que deixo de nominar justamente porque foram muitos.
O Cassiano, além de fazer sanduíches de primeira e não se importar de ficar aberto até a madrugada, ainda marcava na caderneta a nossa conta quando, por motivos alheios à nossa vontade, estávamos duros. Sei que nunca demos calote. Podíamos atrasar um pouco, mas ele, educadamente, nos cobrava quando sentia que havia perigo à vista.
Caso ainda mais grave de negociante que me levava às alturas com o tratamento dispensado era o Paulinho Copelli, da Casa Carlos Gomes, notável estabelecimento situado à Rua Barão de Jundiaí, que se encarregou, durante décadas, de levar o melhor da música aos jundiaienses.
O Paulinho era incrível. Além de oferecer o fino da MPB, do rock e do jazz, ainda tinha um sistema de crédito inacreditável.
Eu levava a pilha de LPs até a sua mesa, tirava a ficha da loja do bolso e ele me perguntava, invariavelmente, depois de somar a compra:
- Quanto é que você quer pagar este mês?
Isso mesmo! Era eu que decidia de quanto seria a prestação. Comprei discos assim durante vários anos. Quando parei - e acertei o débito com o Paulinho - tinha uma coleção de mais de 1.500 LPs, boa parte deles da Casa Carlos Gomes.
Claro que ressuscitar o sistema da caderneta é algo impensável nos dias de hoje. Mas convenhamos: achar 7% de juros ao mês uma taxa aceitável, só mesmo sendo idiota.
Cassiano, Paulinho Copelli... Existiu mesmo esse país onde nós fizemos tantos negócios?

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O paladino da Justiça

A mais nova cruzada do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, é pelo reajuste dos servidores do Judiciário. Presidentes dos tribunais superiores decidiram propor ao Congresso Nacional um aumento de 15% nos salários-base e pagamento da Gratificação Judiciária (GAJ) no valor de 135% do vencimento. Representantes da categoria calcularam que o aumento real será de 80%.
"Estamos constatando que os concursos realizados pelo Poder Judiciário estão se transformando num ritual de passagem. Os aprovados vêm para cá e em seguida vão para outras carreiras. No último ano, tivemos perda nos quadros de 22%. Não podemos ter o sucateamento dos recursos humanos, senão teremos muito provavelmente queda na qualidade do serviço prestado. A situação é delicada", justificou.
Mendes é um homem dedicado a muitas causas. Recentemente, obteve sucesso em derrubar a Lei de Imprensa. Logo depois se engajou em exterminar a profissão de jornalista - outro êxito retumbante.
Antes, havia mostrado toda a sua indignação contra a existência de uma suposta "indústria de grampos", da qual ele próprio teria sido vítima. Chegou a dar um pito no presidente da República e no ministro da Justiça, que, a seu ver, não estariam se esforçando o suficiente para impedir os abusos. Como sua assertiva não teve a sustentação de provas incontestáveis, conseguiu apenas uma meia vitória - se não acabou com os grampos, mostrou a todos - inclusive às mais altas autoridades do país - que com ele não se brinca.
E o homem é mesmo poderoso. Essa última cruzada a que se propôs levar avante não tem apenas a força dos argumentos. É liderada por alguém acostumado a superar os grandes obstáculos, a vencer as mais renhidas batalhas. E que pode, agora, se concentrar mais em seus objetivos, sem as amarras pesadas das preocupações materiais.
Isso foi possível porque desde o início de setembro o salário de Mendes e dos seus colegas ministros do STF está 5% maior, aumento a que serão acrescidos mais 3,88% a partir de 1º de fevereiro de 2010. Assim, o nosso paladino da Justiça terá, no total, um acréscimo de 9% aos seus vencimentos. Ele e seus pares, que já ganhavam R$ 24,5 mil por mês, passaram a receber R$ 25.725 no último pagamento, e vão embolsar R$ 26.723,13 a partir de fevereiro.
O aumento resultará em impacto de R$ 189 milhões nos cofres públicos, no caso dos salários dos magistrados, e de R$ 94 milhões, para salários do Ministério Público. Cerca de 6 mil pessoas, incluindo aposentados, serão beneficiados com o aumento.
Mendes foi sucinto ao defender o reajuste. "Nós estávamos há quatro ou cinco anos sem revisão", disse.
É, um grande problema do Judiciário brasileiro foi resolvido. Estamos todos mais aliviados.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O mito da eficiência empresarial


Depois de passar cerca de 40 minutos, divididos em dois telefonemas, ouvindo música da pior qualidade entremeada por mensagens sem nenhum sentido, tive a percepção de que um dos axiomas mais divulgados nesta nossa sociedade - a ineficiência do setor público - deveria ser mudado.
Sim, pois se o setor público é ineficiente, o que falar então do privado?
Os telefonemas foram feitos para a Eletropaulo e tinham como objetivo saber a que horas a energia elétrica voltaria ao prédio em que moro, já que ela havia sido interrompida depois da ventania que assolou meu bairro no começo da tarde do feriado de segunda-feira.
As informações dadas pelos atendentes da empresa não ajudaram muito. O serviço foi normalizado apenas no começo da noite - os dois funcionários erraram feio.
Dessa vez, porém, pelo menos consegui ouvir uma voz do outro lado da linha. Sinal que, se a Eletropaulo ainda está muito longe de cumprir o que manda a legislação que disciplina o atendimento ao consumidor, pelo menos já parece não ignorar que existe um cliente insatisfeito. Meses antes, numa situação similar à deste feriado, não consegui falar com ninguém.
A concessionária de energia elétrica paulistana é um bom exemplo de uma empresa privada ineficiente, pois presta um serviço de péssima qualidade. Ficou evidente que seus atendentes não dispunham de informações sobre o andamento do conserto da rede. E que o reparo demorou mais que o necessário - cerca de seis horas, num dia de trânsito absolutamente tranquilo.
Mas não é somente ela que contraria o mito da eficácia do setor privado. Basta ver que, à testa do ranking das reclamações do Procon estão as gigantes de telecomunicações e do setor bancário.
Embora eu não seja nenhum especialista no assunto, é relativamente fácil perceber que as empresas brasileiras sofrem de males variados, que, em síntese, revelam a fragilidade de suas administrações.
Rapidamente, listei alguns dos problemas que são facilmente observados em grande parte das companhias:
1) Desperdício;
2) Má qualidade do serviço/atendimento ao consumidor/pós-venda;
3) Práticas desleais de concorrência (formação artificial de preço, concentração, venda casada);
4) Práticas aéticas de negócio (pagamento de suborno, corrupção);
5) Sonegação fiscal;
6) Desrespeito às leis trabalhistas;
7) Desrespeito à legislação do consumidor;
8) Desprezo ao papel social da empresa.
Pode haver quem diga que eu não tenho nada com isso, pois se a empresa é privada, não tem ações negociadas em Bolsa, o dono faz o que quer com ela. Mas é claro que uma alegação dessas só teria sentido se vivêssemos num sociedade pré-capitalista, mais de 200 anos atrás.
Um país que está entre as dez maiores economias do mundo e almeja chegar ainda mais longe precisa discutir seriamente a atuação de seu setor empresarial, sem preconceitos de nenhuma espécie.
Alimentar essa falácia de que tudo que vem do setor público é ruim e tudo que é privado é bom vai além da irresponsabilidade: chega a ser criminoso.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Tocado pelos anjos


Depois do Lula "Paz e Amor" da eleição de 2002, chegou a vez do Serra "Paz e Amor" de 2010.
Costumeiramente avesso a demonstrações de afetividade, o governador paulista parece ter incorporado um espírito benfazejo, tal a mudança ocorrida na sua entrevista à imprensa em Aparecida, ao término da missa em homenagem à padroeira do Brasil.
Foi um Serra tocado pelo Espírito Santo que discursou:
"O Brasil precisa de governantes que sirvam ao povo, não que se sirvam do povo. Ser cristão para mim significa, no governo, servir ao povo. A minha felicidade depende de eu poder proporcionar mais felicidade aos outros. Isso para mim é o que significa ser cristão."
E, falando sobre Nossa Senhora Aparecida, foi possuído pela alma de um verdadeiro revolucionário, dizendo que a sua grandeza serve para a "libertação do nosso povo":
"Essa libertação pressupõe uma sociedade mais justa, igualitária e políticos que trabalham nessa direção, olhando para hoje e para o futuro. Quando se governa, tem que se governar com um olho no presente e um olho no futuro."
E pensar que até outro dia seu gesto mais próximo da humanidade era comer um pastel de feira...
O que não faz uma eleição!

PS.: Ao contrário do seu líder, a subprefeita da Lapa, a ex-vereadora e candidata à prefeitura paulistana Soninha Francine, sempre muito emotiva em suas manifestações, parece ter sido contaminada pela insensibilidade característica dos administradores públicos das facções políticas a que se agregou nos últimos tempos.
Em entrevista à Globo, que fez extensa reportagem sobre o incêndio de uma favela no bairro do Jaguaré, que destruiu mais de 300 barracos, jogando na miséria absoluta centenas de pessoas, Soninha, expressão séria, disse nada mais, nada menos que, feito o rescaldo, as autoridades teriam de tomar providências para impedir que o local fosse reocupado irregularmente.
No mesmo dia, escreveu no Twitter uma frase singela, mas com um toque de perversa ironia: "Sem incêndio hj, por favor? Obrigada".

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Arma de destruição

Qualquer pessoa que observar mais atentamente a ação dos motoristas paulistanos ficará chocada com a capacidade que eles têm de infringir as leis de trânsito.
Mal formados, mal educados, sem as noções básicas de cidadania, a couraça proporcionada pelo aço do veículo dá a eles a proteção para que extravasem seus mais baixos instintos e seus mais profundos recalques.
Dessa maneira, o carro se transforma numa arma letal, muito mais perigosa que as tradicionais, controladas e visadas pelas autoridades.
O dano causado por motoristas incapazes de respeitar a mais simples sinalização, de sequer obedecer a um semáforo, é enorme. Vão além da tragédia pessoal ocasionada por um homicídio - atingem a sociedade como um todo, na medida em que, a cada acidente, ela tem de mobilizar uma complexa estrutura.
No Brasil, para cada morte no trânsito, 11 pessoas são internadas, das quais 49% atropelados, 25% de acidentados com motos. Para cada morte, ocorrem quase mil colisões, informa o ortopedista Marcos Musafir, consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para traumas em geral.
Segundo dados do Ministério das Cidades, o custo com as mortes e os feridos no trânsito no Brasil alcança em torno de R$ 10 bilhões por ano.
Em 1997, quando havia 12 milhões de pessoas a menos habilitadas a conduzir veículos no Brasil, 55 mil pessoas eram mortas por ano em função de acidentes no trânsito. Esse número baixou para cerca de 40 mil óbitos por ano atualmente - cifra ainda muito elevada.
E como diminuí-la? As recomendações são simples - e conhecidas por todos. “É só seguir as regras básicas do trânsito seguro e saudável. Primeiro, respeito às leis do trânsito. Quem cumpre as leis do trânsito evita se expor a riscos e, logicamente, evita acidentes”, diz Musafir.
Os motoristas devem estar atentos ao limite de velocidade, respeitar a sinalização, usar cinto de segurança, nunca consumir droga ou bebida alcoólica para dirigir, manter as crianças no banco traseiro com cinto de segurança ou em cadeiras próprias.
Em relação às motocicletas, Musafir enfatiza a necessidade de se usar o capacete, algo que se aplica também às bicicletas.
Ele diz ainda que o maior número de vítimas é de pedestres, que atravessam fora da faixa ou atrás de veículos em movimento. “O respeito ao pedestre pelo dono da arma, que é o motorista, tem de ser enfatizado também. São essas as recomendações da OMS, que encara o trânsito como um problema de saúde pública, pelos danos que causa.”
Com informações da Agência Brasil

domingo, 11 de outubro de 2009

Em boa companhia


George Marshall, Henry Kissinger, Anwar Al Sadat, Menachem Begin, Lech Walesa, Tensin Gyatso (14º Dalai Lama), Mikhail Gorbachev, Yasser Arafat, Shimon Perez e Yitzhak Rabin.
E agora, Barack Obama.
O Prêmio Nobel da Paz já foi entregue também para Albert Schwitzer, Madre Tereza de Calcutá, Martin Luther King Jr. e Desmond Tutu.
Como se vê, coerência não é o forte do comitê encarregado de escolher a pessoa/organização que tenha feito "a maior ou melhor ação pela fraternidade entre as nações, pela abolição e redução dos esforços de guerra e pela manutenção e promoção de tratados de paz", conforme o desejo de Alfred Nobel, o inventor da dinamite que instituiu o prêmio.
Ou talvez seja isso mesmo: num mundo louco como este, por que a razão seria a condutora das melhores ações?
Premiar a insensatez é mais lógico.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Bicão de festa

Soem os clarins! Chegou o salvador!
O senador Eduardo Suplicy, num gesto típico daqueles que fazem da vida uma sucessão de gestos de sacrifício ao próximo, colocou o seu nome à disposição do PT para disputar o governo de São Paulo.
Como se sabe, o partido vive hoje dias de terrível dilema: lançará candidatura própria ou, como quer o presidente Lula, apoiará o deputado Ciro Gomes, do PSB, que ainda reluta em concorrer ao cargo de governador? E, se decidir ter candidato, quem será o escolhido, já que os nomes mais comentados - o prefeito de Osasco, Emídio de Souza, o deputado Antonio Palocci, o ministro da Educação, Fernando Haddad, e o deputado Arlindo Chinaglia - são fracos eleitoralmente? A ex-prefeita Marta Suplicy, nome mais consistente nas pesquisas, já falou que pretende, dessa vez, concorrer a um cargo legislativo.
Suplicy, que está há 16 anos no Senado, e cujo mandato está garantido até 2014, poderia ser a solução para o problema. É muito conhecido e tem uma base eleitoral forte.
Seria, se Suplicy não fosse Suplicy, que nos últimos tempos parece mais preocupado em jogar para a platéia do que fazer um trabalho sério na base de sustentação do governo.
Totalmente alheio à realidade atual do Brasil, o senador virou um pastiche dele próprio, movendo-se ao sabor das notícias dos jornalões, perseguindo alguns segundos na televisão.
Sua última performance no plenário fez a festa da imprensa ávida por gestos tresloucados: o cartão vermelho que deu a José Sarney tingiu de vergonha não o velho cacique maranhense, mas uma boa parcela do eleitorado que acreditava que Suplicy era uma ilha de integridade cercada por um mar de leviandades - para não dizer outra coisa.
Por essas é que não dá para levar a sério a sua oferta. Não se sabe, principalmente, se o candidato que disputaria a eleição com a bandeira do PT seria o Suplicy combativo, comprometido com as causas populares, que surgiu como uma esperança política anos atrás, ou essa triste figura que hoje age como caixa de ressonância dos mais obscuros desejos de uma oligarquia que pretende ver o país como simples quintal de sua mansão.
Esse Suplicy, que sopra nos ouvidos dos jornalistas e de interlocutores das lideranças do PT uma oferta aparentemente tentadora, está mais para um bicão de festa, aquele sujeito que não sabe de quem é o aniversário, mas não sai da fila do bufê.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Cachorro de madame

Depois de ter desagradado seus colegas ao aceitar convite para se reunir com o presidente golpista de Honduras, o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), líder da missão parlamentar brasileira enviada àquele país não se sabe bem para que, disse que o Brasil deve desculpas ao povo hondurenho por ter permitido que o presidente deposto, Manuel Zelaya, fizesse manifestações políticas de dentro da embaixada brasileira.
“O governo agiu corretamente quando o abrigou dentro da nossa embaixada. Mas a diplomacia brasileira cometeu um gravíssimo erro ao permitir que ele se manifestasse via embaixada brasileira. Por isso, devemos um pedido de desculpa ao povo hondurenho”, disse ao relatar a viagem na Comissão de Relações Exteriores da Câmara.
Imediatamente, recebeu o troco do deputado Jackson Barreto (PMDB-SE), que saiu irritado do plenário da comissão. “Eu quero é aplaudir o governo brasileiro”, gritou.
Da mesma forma que o Brasil seguiu a sua vocação histórica de prestar auxílio humanitário ao abrigar o presidente deposto, o deputado Jungmann continua coerente com o seu passado entreguista.
Ele segue sua trajetória parlamentar obedecendo fielmente as ordens dos patrões tucanos. Cabe a ele, nesse vexatório papel, fazer o trabalho sujo, ou seja, espalhar boatos, semear discórdias, plantar falsidades na imprensa, assumir, enfim, a linha de frente da oposição furibunda.
Como é do tal PPS, criado por um grupo oriundo do Partidão, pensa que está acima de qualquer suspeita, que consegue enganar alguém.
É mais um desses comunistas de araque que servem como moleques de recado da oligarquia nacional.
Como ele há muitos outros por aí, felizes por comer os restos do banquete e por trajar as roupas que foram descartadas por seus senhores por já estarem fora de moda - uma recompensa à altura do seu caráter.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Pérolas para o colar


Se fosse possível juntar todas as bobagens que Fernando Henrique Cardoso - o indefectível FHC, Príncipe dos Sociólogos, o presidente que quebrou o Brasil três vezes, patrocinou a farra das privatizações, tentou de várias maneiras acabar com os direitos trabalhistas, que seguiu, enfim, com extremo zelo, a cartilha neoliberal editada pelo Consenso de Washington - já falou ou escreveu, certamente teríamos um livro capaz de ficar meses nas listas dos mais vendidos. Seria hilário - ou trágico. Depende do ângulo, diria alguém mais espirituoso.
FHC é surpreendente. Quando todos pensam que ele vai, enfim, dar a si mesmo o merecido descanso, não é que ele ressurge, com todo o esplendor do incrível personagem que ele criou e representa? E nos locais mais inusitados, porque FHC nunca está parado - é incrível como ele se move, para fazer jus ao papel de cidadão do mundo a que se impôs.
A última de FHC vem do município catarinense de Blumenau, onde foi falar, a convite da associação de lojistas local, sobre as perspectivas do desenvolvimento brasileiro - tema que deve dominar como poucos, pois pôde, depois de sua aposentadoria forçada, como "cientista social" que é, observar o país atravessar um longo período de crescimento sustentado. Antes, almoçou com lideranças da região e sobrevoou as cidades de Ilhota, Gaspar e a própria Blumenau, para ver os estragos causados pelas enchentes do ano passado e as chuvas recentes. Deve ter se emocionado.
O "Jornal de Santa Catarina" não perdeu a oportunidade e, na entrevista que fez com ele, conseguiu arrancar algumas respostas que merecem integrar o imenso colar de pérolas que o nosso insígne líder vem produzindo ao longo de toda a sua proveitosa existência.
Sem mais, vamos à íntegra de mais uma sucessão de frases lapidares que expressam um caráter já perfeitamente definido por anos e anos de profícuo labor e intensa solidariedade ao ser humano (os negritos são de minha modesta autoria):

Jornal de Santa Catarina - Qual a visão do senhor sobre a tríplice aliança no governo de Santa Catarina e a eleição do ano que vem?
Fernando Henrique Cardoso - Eu acho que é muito importante manter a tríplice aliança. É o caminho da vitória e tem que haver um entendimento.
Quem estiver melhor posicionado na época das eleições será o candidato. Não dá pra tirar do bolso do colete um nome e os partidos têm que ter a compreensão disso. É muito importante ter em mente também que nós temos um objetivo nacional e que temos muitas chances de ganhar com a candidatura do PSDB. É preciso que a gente não disperse força nos estados.
Santa - Pesquisas vão nortear a decisão?
FHC - As pesquisas e a avaliação política, simultaneamente.
É como nós estamos fazendo em nível nacional. É o Serra ou o Aécio? Eu não sei. Depende um pouco da situação mais adiante, da avaliação política e se a pessoa tem consistência para poder, realmente, continuar mantendo as alianças.
Santa - Mas a preferência do senhor é clara pelo Serra. Ou não?
FHC - Não necessariamente.
Minha preferência é por quem possa ganhar. Nesse momento, o Serra dá mais indicações de que está na frente, mas se o Aécio estiver na frente, eu sou Aécio até debaixo d’água. Eu gosto muito dos dois e acho que o importante para nós é não perdermos a eleição do ano que vem.
Santa - A migração da senadora Marina da Silva do PT para o PV ajudou a candidatura do PSDB?
FHC - Não sei se ajudou a candidatura do PSDB, mas beneficiou o Brasil. Ela trouxe um tema novo. Gosto muito dela. É uma mulher íntegra e abre o debate, o que é muito importante. Vai depender agora do desempenho dela, pra saber se ela vai tirar mais voto de um ou de outro, e da reação que os candidatos tenham. Eu, da minha parte, acho que o tema ecológico veio pra ficar e a Marina simboliza isso.
Santa - O governo Lula segue sendo bem avaliado pela população. Qual o segredo, após dois mandatos?
FHC - Eu acredito que seja pelo fato de ele, permanentemente, estar falando com o povo. E falando do jeito que o povo entende.
O Lula é um incansável propagandista dele e do governo dele. E de bons resultados. É isso.
Santa - O senhor reconhece os bons resultados do governo?
FHC -
Reconheço os bons resultados da propaganda (risos). O governo fez coisas importantes. O Brasil tem que crescer pela acumulação de bons governos e na medida em que o Lula seguiu as vias fundamentais da área econômica, eu tenho que reconhecer que ele seguiu. Agora, por outro lado, a medida em que ele está usando muito o aparelho do Estado para utilizar pessoas do partido e também que ele é muito indulgente com a corrupção, aí eu acho que não está certo.
Santa - O Rio de Janeiro acabou de ser escolhido como sede das Olimpíadas 2016. Temos competência para promover um evento desse porte?
FHC - Se não tivéssemos, teríamos que ter. Agora é o desafio e nós vamos cumprir. O Rio de Janeiro vai ganhar muito com isso. Vamos ter que fazer nosso esforço.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Como o escorpião


Esqueci de uma importante característica da turma do contra entre as tantas que listei na crônica antecedente a esta: seus integrantes gostam de, para usar um eufemismo batido, "faltar com a verdade".
Abusam do expediente de distorcer números e fatos, de modo que eles justifiquem a tese que pretendem provar. Que é sempre dizer que o Brasil é o pior lugar do mundo, rincão ermo, perdido entre os confins da Terra, irremediavelmente condenado a apodrecer entre os desenganados. Uma paródia do inferno, para não dizer o próprio, onde nada se produz além de uma indefectível vocação ao parasitismo, à corrupção e à gatunagem.
Esse lugar imaginado pela turma do contra está tão repleto de males que não existe medicina que o alivie. Nasceu assim - e assim ficará até o fim dos tempos.
O que impele, porém, a turma do contra a permanecer neste cafundó dos judas? Por que seus rabugentos porta-vozes não raspam os cofres gordos e zarpam, céleres, para os verdes vales de bonança e mel que alimentam os seus sonhos?
Simples. É que a turma do contra, como na parábola do escorpião e do sapo, tem a dominá-la o gene do preconceito e não consegue, mesmo quer se esforce, fugir da sua natureza.
Prefere, como o escorpião que envenena o sapo que o conduzia com segurança na travessia do rio, se afogar na ignorância do que renascer na esperança.
Precisa do ódio, vive dele.

sábado, 3 de outubro de 2009

A turma do contra


Os últimos dias foram demais para a turma do contra, esse pessoal que acha que o Brasil nunca esteve tão mal em toda a sua história.
Como a turma do contra não tem endereço único, nem gosta de ser encontrada, reuni algumas características que podem identificar seus integrantes.
Se acaso você, caro internauta, topar com alguém da turma do contra, por favor, sorria, faça algum gesto de comiseração, mínimo que seja.
É que tal pessoa está na lista dos espécimes ameaçados de extinção.
Feita a introdução, vamos a um breve resumo das peculiaridades do típico membro da turma do contra:

Diz que paga imposto demais.
Lê (e acredita no que lê) Veja, Estadão, Globo e Folha.
Não perde o Jornal Nacional.
Louva a liberdade de imprensa.
Considera a Globo padrão de televisão - e seus atores, soberbos.
Jura que não tem preconceito, mas "não fala com pobre, não dá mão para preto, não carrega embrulho*".
Também odeia nordestino.
Rejeita as cotas raciais na universidade.
Adora um jabá.
Elogia Marina Silva por ter saído do PT.
Diagnostica que o problema do Lula é o PT.
Vota no Suplicy (para não dizer que abomina o PT).
Acusa a Dilma de mentirosa.
Julga o FHC um estadista - e o Lula uma vergonha para o país.
É a favor da privatização.
Defende o "Estado mínimo".
Odeia os políticos, porque são todos ladrões.
Acusa o governo (federal, do PT) de ineficiente, perdulário e, é claro, corrupto.
Além disso, inchado, com gente demais sem fazer nada - um cabide de emprego.
Acredita que o Serra é o "pai dos genéricos", um renomado economista e excelente administrador.
E que o Kassab ainda não casou porque não achou a mulher certa.
Só não vota mais no Maluf porque agora tem o Serra e o Kassab.
Com a estrada congestionada, ultrapassa pelo acostamento.
Prefere dar "bola" ao policial rodoviário do que ser multado.
Faz discurso contra a "indústria da multa".
Instala equipamento antirradar no carro.
Avança no sinal vermelho.
Desrespeita a faixa de pedestres.
Adora filme americano - indicado pela Folha ou pela Veja.
Assiste à premiação do Oscar.
Ouve e dança axé e não perde show da Ivete Sangalo.
Prefere praia ao interior (Campos do Jordão é outra história).
Tem certeza de que a Copa do Mundo de 2014 será um desperdício de dinheiro público.
Idem para a Olimpíada do Rio.
Prefere contrato de trabalho PJ para não pagar Previdência Social (e outros tributos).
Gasta 1/5 do salário em plano de saúde.
Teme ser contaminado pela gripe suína.
Acha o Hugo Chávez um ditador.
Conta piadas sobre o Evo Morales e o Fernando Lugo (já fez muitas sobre o Lula).
Não faz a mínima ideia de quem é Rafael Correa.
Tem simpatia pelos verdes, mas não dispensa uma churrascaria.
Só toma vinho fino.
Não sabe distinguir um petite sirah de um malbec.
É contra toda e qualquer greve.
Aponta o transporte público como solução para o caos viário paulistano (mas só pegou metrô quando o carro estava na oficina).
Não dá esmola "de jeito nenhum".
Veste camiseta polo Lacoste com o rabo do jacaré virado ao contrário.
Acha brega ser brasileiro.
Etc etc.
E, last but not least, sonha em ir embora do Brasil.
De preferência para os Estados Unidos - o problema é que seu inglês se resume ao the book is on the table.

* "A Banca do Distinto", de Billy Blanco